Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Alinhamento planetário
30 de junho de 2016 às 9:37 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Mercúrio não estava retrógrado quando ela terminou de secar o cabelo, mas seu reflexo não sorri animado. Sua expressão era apreensiva enquanto tentava de todo jeito domar os cabelos curtos. Olhou o relógio pela milésima vez. O avental xadrez já amarrado na cintura. 
Vênus brilhava imponente no céu de fim de tarde e no sorriso que blefava sem nenhuma manilha. Os olhos corriam das cartas para a festa sem parar em nada específico. A mão que não segurava o baralho corria, de tempos em tempos, pelos cabelos curtos.  
O dia já passava em Marte quando ela passou do lado da fogueira cantarolando uma música qualquer que berrava algo sobre um coração partido. Deslocada entre as bandeiras e vestidos e barbas feitas com lápis de olho. Esfriando na mão o copo de quentão, sorrindo tímida, vasculhando tudo com os olhos de tempestade. 
Não muito atrás vinha Júpiter, correndo para alcançá-lo quando elas se cruzaram pela primeira vez sem notarem a presença uma da outra a não ser pelo arrepio que percorreu os dois corpos. Sem notar o magnetismo que atraía os polos para mais perto um do outro. Sem notar as simpatias de Santo Antônio que se realizavam.  
Foram os anéis de Saturno que seguraram o mapa astral e os corpos celestes que orbitavam num furor elétrico dançavam ansiosos pra que o destino se realizasse. Alheias a toda a movimentação astronômica, elas apenas se deslocavam sem rumo sentindo o cheiro de milho verde, ocupando espaços opostos da via láctea.  
Urano trouxe seus satélites para televisionar o destino ao vivo e a cores. Um acontecimento histórico, duas almas na mesma reta impulsionadas pela movimentação interestelar, ultrapassando anos-luz em alguns passos em volta de uma fogueira de São João. Flutuando pelo tempo e espaço numa onda cósmica de misteriosa excitação.  
Mas quando os dois pares de olhos se encontraram, cada qual na sua casa celeste, os astros entraram em festa. Netuno completou sua volta no tempo em que aqueles olhos se encararam, reconhecendo-se um no outro, adentrando a atmosfera de um planeta novo, um planeta delas. E tudo se alinhou.   

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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