Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

uísque com guaraná
28 de maio de 2015 às 2:12 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Varri a casa só onde o padre passa a batina. Aprendi isso com a minha mãe. A expressão. Não fazer coisas desse jeito. Minha mãe não fazia nada pela metade. Ou fazia até o fim, ou não começava nada. Quem dera eu tivesse herdado isso dela e não só a teimosia e mudança constante de humor. Quem dera eu tivesse deixado de lado as crises de pânico e a ansiedade crônica. Quem dera eu tivesse ficado com os olhos azuis. Mas os meus são castanhos. E eu deixo tudo inacabado. Comecei a fazer uma coleira pro gato, comecei uma reforma na cozinha e acabei com uma sala meio pintada de vermelho e uma horta sem plantas no quintal. Escutei você me dizer que queria um tempo sozinho. Me escutei te dizer que eu queria um tempo sozinha. Pensei ter escutado você pedir pra eu ficar. Não fiquei pra saber se era isso mesmo. 
Achava bonitinha a tua mania de não responder minhas perguntas, ou responder de forma literal demais quando eu obviamente estava sendo figurada. Agora isso me irrita. Me dá aquela impaciência tão típica de mim. Me faz odiar teu rosto torto, teu jeito tosco de me dizer que não me quer. Varri a casa pra me esquecer de limpar minha vida, e jogar pra baixo do tapete esse meu rosto tosco, meu jeito torto de te dizer que não me importa, eu já to nessa. E se minha mãe soubesse que eu ando nessas, que uso as roupas direto do varal, que lavo a louça pra usar de novo e que me enfiei assim na sua vida, tudo pela metade, tudo sem jeito, cortando caminho sempre que possível... Fui me educando assim apesar de todo o trabalho que ela teve.
Varri a casa só pra te escrever esse texto, pra te dizer que estou ocupando minha mente de forma produtiva. Que é exercício de criatividade pro meu livro. Varri a casa pra ser menos como a minha minha mãe. Pra me ver como eu sou, insegura e insignificante, varrendo minha essência, os resquícios de uma juventude baseada em bolo de cenoura na casa da vó em Paraty. Em tarefas bem feitas num colégio de freiras. Em tardes de sol pegando carambola do pé. Ainda assim, de alguma forma, me vejo o retrato cuspido e escarrado daquele temperamento instável, daquele tom de voz tão seguro de si que é tomado como rude, quase opressor, e que é reflexo de uma insegurança da mente que não cabe aqui. Varri a casa pra me varrer de mim. E te varrer junto, se for preciso. Porque escutei tantas vezes a tua música que parece algo que minha mãe cantava pra eu dormir. Não sei se gosto mais das palavras ou do som. Grave. Como isso que se forma no meu peito toda vez que ouço teu nome. Varri minha casa pra concentrar minha ansiedade em algo diferente. Diferente de mim e dela e de você. Varri minha casa. 

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Sábado em sépia
3 de maio de 2015 às 7:41 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
        Nunca fui muito boa em tomar decisões, mas talvez essa seja a hora. Decidi seguir meus instintos com você, não pensar e só ir fazendo e aproveitando as oportunidades. Tentei não interpretar, mas a verdade é que sempre esperei as cores supersaturadas de sexta ou a elegância do quarto em preto e branco. E tudo o que eu tenho é essa tarde sépia, e não tenho paciência. Quero fazer parte da sua rotina, quero me inserir em você do mesmo jeito que fui te inserindo em tudo que sou. E sei que fui assim sem pedir permissão, entrei na sua casa, amornei o teu domingo, conheci teus amigos, usei teu banheiro, respirei tuas manias, me adaptei de vez ao teu lugar. E você nem sequer me convidou. Fui eu. Fui sempre eu. Com giz pastel e efeitos do instagram me pintando em você. Tão fraco e tão sutil que você nem me percebeu, que foi saindo durante o dia conforme você lavava as mãos, que manchou o seu lençol e te fez lavar todas as roupas. Na maior parte do tempo sinto que te inventei assim distante e fico tentando lembrar da sua voz, e fico tentando lembrar se tinha mesmo aquele carinho que eu me lembro ou se fui eu te pintando com as minhas cores, se fui eu deixando tudo em preto e branco e acabou tudo envelhecido, com cara de história antiga que não tem lá nem cá. E como num livro para colorir quero pintar tudo de novo como pintei o presente da minha mãe, mas to nessa fase "tons pastel" e eles não são suficientes pra você. E quando eu aparecer com mais um texto pra você, você vai respirar cansado, vai ranger os dentes duas ou três vezes, vai dizer pra eu não grilar e vai dormir de novo. 

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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