Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Pra onde levam aqueles olhos castanhos
13 de junho de 2014 às 2:41 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
-Eu sou boa em chorar sozinha. 
Foi tudo o que ela me disse antes de se virar com aqueles enormes olhos castanhos e entrar no elevador. E é assim que eu me lembro dela, o sorriso curto encaixando-se perfeitamente naquele rosto sereno e calmo, o cabelo curto caindo atrás das orelhas, o olhar curto se demorando no meu, a frase curta pairando no espaço entre nós dois. Um espaço infinito que se formou em questão de segundos. Bom, talvez tenha demorado anos e eu que não percebi. 
Sei que quando penso nela, penso nela assim. Uma mão segurando a bolsa e a outra apertando o botão no elevador. E aí sinto falta da mão dela tão pequena na minha, o vidro separando as duas, sempre tinha um vidro entre nós. Fosse a janela do café, a vitrine da loja, a porta do box... Mas o calor estava sempre ali. O calor do meu no dela. O calor daqueles olhos castanhos concentrados nas mãos que já não me causavam estranhamento algum com aquele toque gelado. 
Sinto falta desse toque. Saio no inverno sem luvas tocando todos os vidros pra sentir aquele choque de quando ela chegava de repente com aquelas mãozinhas de pedras de gelo no meu rosto. E me pego sorrindo e esquentando minhas próprias mãos no pescoço do jeito que sempre a via fazer. Então curvo as sobrancelhas porque essas lembranças não combinam com a garota que dizia com um sorriso apertado que é boa em chorar sozinha. Até seus olhos castanhos sorriam daquele jeito que a gente só sorri quando sabe que é a última vez. 
A última vez que eu a vi e nem mesmo pude tocá-la. Não pude dizer que ninguém deve chorar sozinho, não pude dizer que eu sabia que aquele sorriso e aquela paz eram só porque não tinha vidro nenhum entre nós, porque suas mãos estavam quentes assim como o meu rosto, mas o dela estava frio. E fico imaginando que ela chegou em casa e chorou depois de ter segurado o trajeto inteiro encarando as entranhas do metrô. Eu não chorei, porque não teria aqueles olhos castanhos me aquecendo e me fazendo rir. 
E agora quando penso nisso é como se estivesse numa tela de cinema, seu rosto a três metros de altura, a pele macia, as sardas no nariz, os olhos castanhos, a frase, as portas do elevador fechando, as mãos paradas, a tela preta, sem créditos finais. E eu sentado, sem pipoca e com os olhos secos. Eu não sei chorar sozinho.  

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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