Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Três minutos
27 de novembro de 2013 às 1:57 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Abriu a porta e lá estava ela, os cabelos pretos despenteados e molhados da chuva, os lábios vermelhos levemente abertos, os olhos castanhos borrados. Não é que ele não quisesse encontrá-la, só não estava preparado para vê-la ali, na sua porta, com a calça de moletom e a velha camiseta azul da universidade molhadas de chuva. Passou a mão nos próprios cabelos molhados do banho e tomou consciência da própria boca levemente aberta. Tentou pensar na última vez que tinham conversado, só conseguia lembrar das brigas. Lembrava daqueles olhos enormes se enchendo de água, lembrava das mãos tremerem. As palavras pareciam distantes, as histórias, o passado. Era como se, de repente, aquelas justificativas não fizessem sentido e não pudessem ser colocadas numa mesma frase. Vendo-a assim, vulnerável e inocente e tão mulher, entregue de um jeito que ela nunca esteve durante todo o relacionamento, ficou em dúvida se saberia lidar com a presença dela ali. Sentiu-se humano e fraco, pela primeira vez em muito tempo não se viu como o vilão da história, mas como o mocinho prestes a ser salvo. Não conseguia colocar a cabeça em ordem para fazer qualquer coisa, só conseguia olhá-la. Queria, mais do que em qualquer outro momento, saber o que se passava naquela cabecinha e nem se importava com a poça de água que se formava na entrada.
Ela não tinha muita certeza do que estava fazendo. Todo o plano que tinha traçado cuidadosamente agora parecia o resultado de um brainstorming só com pessoas bêbadas (talvez tivesse sido isso mesmo). Mas lembrava da sensação que teve ao sair de casa, ao tomar essa decisão e simplesmente sair correndo pelas escadas sem lembrar de pegar o guarda chuva ou tirar a calça de moletom, parecia uma boa ideia no momento, parecia a coisa certa, já não sabia porque. Não sabia em que momento tinha começado a confiar nos seus instintos, talvez se tivesse feito isso antes, se tivesse se soltado mais, não teria acabado assim, não precisaria correr na chuva pra alcançar o último ônibus da noite. Por um momento se arrependeu de ter ido até lá, a última vez naquele apartamento tinha sido estranha e desconfortável, a noite mal dormida sozinha naquele quarto tão dele. Ignorou os arrepios que subiam e desciam por sua espinha dorsal (não sabia se era frio ou ansiedade) e tentou se manter o mais firme possível. E tentou se lembrar das palavras certas, e tentou se lembrar de qualquer palavra e tentou se lembrar de como chegara até ali. E tentou se concentrar em alguma coisa que não fosse o barulho absurdamente alto que seu coração fazia quando tocou a campainha. E ele abriu a porta e lá estava ela, os cabelos pretos despenteados e molhados da chuva, os lábios vermelhos levemente abertos, os olhos castanhos borrados. 

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Um par
26 de novembro de 2013 às 12:19 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Enfim os meses se passaram
e se passaram dias
e horas

E eu...
Estática memória
do que foi um dia
suficiente pra você

Tropeço
nos segundos que passam
entre os meus pés
entre os seus pés
que para mim
são um só
um par

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O fim é belo incerto
21 de novembro de 2013 às 8:26 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
O fim é quase tão lindo quanto o começo. Todo o choro, o drama, a paixão transbordando todos os poros. No começo eu achei que não fosse sofrer, a gente sempre acha... Achei que tinha construído bem minhas barreiras, treinado o suficiente minhas fugas, ensaiado o fim. Mas nem o melhor treinador teria me preparado para isso, por mais dedicado ou empenhado que ele fosse. Nenhuma vidente teria previsto esse fim, nenhum coreógrafo poderia me mostrar os passos. E é tudo tão lindo, tão triste, a insônia, a falsa indiferença, a aceitação... Meus olhos fugindo dos seus, que nem veem mais os meus. Minhas mãos afastando-se das suas, que não se arrepiam mais com as minhas. Minha boca calando a sua, que já não cala mais a minha. E os pedidos desesperados por atenção nem são notados. E os abraços calejados são duros, frios e calculados. E as palavras de afeto tão distantes estão perdidas nesse oceano entre a sua boca e o meu ouvido. Sobra pouco, tão pouco, pra chorar. E no fim tudo é unilateral.

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Nesse último mês.
2 de novembro de 2013 às 7:54 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
          Eu tenho tentado dar o melhor de mim, eu tenho tentado escrever alguma coisa decente pra entrega da outra semana, eu tenho tentado me concentrar no artigo, eu tenho tentado deixar meus medos de lado, eu tenho tentado me entregar de uma vez, eu tenho tentado me entregar ainda que só um pouco, eu tenho tentado deixar você entrar, eu tenho tentado deixar ele sair, eu tenho tentado deixar as janelas abertas. Eu não bato mais a porta, eu não fecho mais a cara, eu não deixo os sapatos jogados. Eu desliguei a tv, eu abri meu estojo de pastel, eu gastei minhas canetas nankin, eu quebrei meu notebook, eu te escrevi uma carta. Eu me afoguei em crises inventadas, fui engolida por verdades imaginárias, queimei na dúvida sobre coisas reais. Troquei a playlist dois minutos depois de ter começado, favoritei músicas que não conseguia nem ouvir até o final, parei o filme no meio, chorei lendo artigos de doutorado. Eu tenho tentando não pensar demais, eu tenho tentado pensar um pouco, eu tenho tentado não chorar com propaganda. Eu não falo mais nela, eu não compro mais livros, eu não canto mais no chuveiro. Eu parei de ouvir música alta, eu joguei fora minhas recordações, eu te mostrei meus textos antigos. Falei que ia parar de guardar tudo pra mim, aprendi a usar o banco online, confiei no seu senso de direção. Eu tenho tentado dar o melhor de mim, eu não fecho mais a cara, eu abri meu estojo de pastel, fui engolida por verdades imaginárias, parei o filme no meio e envelheci dez anos ou mais.   

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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