Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Dois Barcos
25 de fevereiro de 2013 às 4:13 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Enterrou a terceira garrafa vazia na areia deixando só a boca pra fora. Esfregou os olhos e passou as mãos no cabelo. Não sabia há quanto tempo estava sentado ali, já tinha visto o sol subir e descer, famílias e grupos de amigos chegarem e irem embora enquanto não fazia nada além de beber e enterrar as garrafas. Ignorava qualquer movimento a sua volta, ouvia apenas o barulho do mar e um leve zumbido que começava a ecoar em sua cabeça.
Por isso mesmo não notou a garota que saiu de alguma roda com uma garrafa de vinho barato na mão e sentou a meio caminho de onde estava. Não percebeu os olhares a princípio de canto de olho progressivamente se tornando menos discretos. Ainda sem tomar conhecimento de nada, tirou um cigarro do maço que carregava no bolso, verificou quantos sobraram e o acendeu.
-Você sabe que isso vai acabar te matando, não sabe?
Ele parou, olhou para o cigarro em sua mão e depois virou a cabeça devagar na direção da garota sentada na areia. Olhou em silêncio por alguns instantes, não tinha certeza se ela tinha mesmo falado com ele, podia ter imaginado, a frase tinha se perdido na distancia entre eles e sobrara só o eco daquela voz doce que podia nem ter existido. Voltou a cabeça para a frente e o olhar para o cigarro em suas mãos.
-Eu vou correr o risco.
Deu uma longa tragada esperando que a garota se afastasse, mas ela não se mexeu. Apenas continuou lá sentada, sorrindo. Olhando para ele e sorrindo. Ele nem sabia dizer porque ela sorria, mas já podia sentir esse sorriso dentro dele mesmo. E isso o incomodava, não gostava de nada desconhecido o impregnando desse jeito, não gostava de carregar essas marcas. Sentia o peso desse sorriso bem como o peso daquela presença. Olhou para ela incomodado.
-Além do mais, você não ta em posição de falar alguma coisa... Afinal, não ta bebendo nenhum suco de uva.
Ela riu abertamente. Não gargalhou, só riu. Olhou para a garrafa que ainda segurava e a estendeu para o rapaz.
-Bom, depende do ponto de vista. – Esperou que ele pegasse a garrafa – E eu não disse que você não deve fumar, ou algo assim. Só perguntei se você sabe que isso vai te matar...
Foi a vez dela de esperar. Esperava alguma reação do garoto (agora garoto, com olhos de menino perdidos vagando pelo mundo sem saber o que procurar), alguma resposta, ainda que fosse para mandá-la embora. Esperava alguma ação, mas ele continuava ali, parado, imóvel. A única movimentação foi tomar um longo gole da garrafa antes de devolvê-la.
-Não é como se eu achasse que fosse viver para sempre.
Apagou o cigarro numa pedra antes de voltar a olhar para a garota que tinha vindo se sentar mais perto dele.
-Então você devia aproveitar melhor seu tempo, sabe, e não agir como um velho amargurado de setenta e cinco anos.
Ele riu pego de surpresa. Absorveu o vácuo, o espaço de silêncio formado depois daquela voz que nem parecia sua. Sentiu a cabeça girar levemente, era o começo de uma agradável tontura. Tudo parecia mais distante, ele mesmo se sentia mais distante. Distante de tudo. E, ainda assim, sentia-se incrivelmente próximo daqueles olhos castanhos brilhantes e aquele sorriso que nunca sumia e que não tinha motivo aparente nenhum pra estar ali.
-Eu nem te conheço e isso vai parecer muito estranho, mas você me acalma.
-Acho que eu sou a única que não percebe a minha calma. - Ela sorriu balançando a cabeça, bebeu da garrafa antes de olhar para o mar e responder com a voz suave. – Parece que disfarço muito bem a tempestade aqui dentro. Já sei o que a gente devia fazer.
Levantou-se de repente limpando a areia do short jeans. Tirou o moletom jogando-o no chão, tirou então a blusa branca que estava por baixo e o próprio short jeans. Ainda sentado e ainda meio tonto com toda aquela movimentação, o garoto a olhava com a boca levemente aberta, um pouco atordoado, enquanto ela corria de calcinha e sutiã para o mar.
-Vem logo!
Sem ter muita certeza do que estava fazendo ficou em pé, desabotoou a calça jeans, mas olhou para todos os lados antes de ter coragem de tirá-la. A praia estava quase vazia, só conseguia ver uma ou outra pessoa, mas no escuro e com essa distancia não se distinguia nenhum detalhe.  Tirou a calça e a camiseta e correu até colocar os pés na água.
Por um momento ficou com medo de ter imaginado tudo aquilo, tentou se lembrar de todas as coisas que aconteceram antes e de quantas garrafas de cerveja tinha bebido. Olhou para todos os lados, os pelos do braço arrepiados com a brisa fria, mas ainda podia sentir o gosto do vinho doce na boca. Viu um montinho preto na areia que parecia o conjunto de roupa íntima que ela estava usando.
-Você vai ficar aí parado?
Ela tirou o cabelo do rosto, sempre sorrindo e esperou que ele se aproximasse antes de sair nadando. Nos primeiros minutos, ele não conseguiu fazer nada além de olhar aquela pele brilhando à luz da lua, cada curva daquele corpo se movendo lenta e suavemente, toda aquela clareza se contrapondo à profundidade do mar.
Então, passado o primeiro choque, nadou também, alcançando-a em menos de três braçadas. Nadaram juntos por mais tempo do que ele achou que fosse capaz. Paravam de tempos em tempos pra jogar água um no outro, fazendo gracinhas e se perseguindo. Até que os dois pararam em uma nuvem de excitação e medo, de alguma forma o calor de seus corpos se encontrou no toque macio dos lábios.
Em movimentos quase involuntários, impelidos por uma mistura de excesso de álcool e juventude, chegaram até a praia quase como um só corpo. Toda a distancia inicial agora era externa a eles.  Ele não se sentia mais um velho porque agora sentia o mesmo que ela, independente do que fosse. Sentia-se completo no êxtase e no medo e em toda aquela surpresa e emoção inéditas para ele.
Mesmo com os calafrios e o vento frio que aumentava os dois se sentiam quentes e únicos, mas acima de tudo, sentiam-se jovens. E então quando a separação aconteceu pareceu abrupta e incoerente, ele sentia o rosto quente e vermelho, não queria que a noite acabasse, porém não se moveu enquanto a via ir embora. Os pés descalços deixando pegadas na areia.
Ficou apenas olhando enquanto aquele corpo suave e belo caminhava pela praia afastando qualquer prova concreta da realidade daquela noite. Depois foi a sua vez de sair em caminhada, com bem menos graça, quase sem equilíbrio até encontrar o ponto inicial. Vestiu as roupas sem pressa, olhava para o céu e para o mar e para a noite. Tirou o ultimo cigarro do bolso, acendeu e tragou feliz.

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Carta de Absolvição
18 de fevereiro de 2013 às 5:38 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
         Eu sou uma pessoa horrível e essa é a verdade. Sempre me identifico com os personagens loucos, frios e dissimulados e nunca com a mocinha bem amada e resolvida do filme francês. Não é que eu planeje ser ruim, não é que eu faça de propósito, mas eu não consigo mudar. Eu uso as pessoas assim como te usei e depois escondo tudo. Trago esse sorriso doce e os olhos de menina, mas minha alma é pesada e doente. E mesmo depois de todo esse tempo não aprendi a te amar e mesmo as suas mãos calmas não amaciaram meu ser. Não posso mais fazer isso com você porque cansei de te machucar. E não sou assim tão ruim, me machuco também. A diferença é que eu escondo as cicatrizes e anestesio a dor. Já você tão bom moço altruísta não se importa com a própria dor. Às vezes penso nisso e me dá vontade de pisar no seu peito até abrir um buraco tão grande que mesmo seus sentimentos mais profundos vazem por ele. Logo depois me arrependo por ter pensado assim, mas você cobra tanto de mim! Não suporto esse tipo de pressão e minha única vontade é acabar logo com isso. Você já sabia que eu era assim, você leu o contrato, agora me vem com contestações de detalhes que não fazem diferença nenhuma. Eu te fiz perder o fio da meada, mas você me pede o pensamento inteiro. Sendo assim, não tenho nem como me sentir culpada. Sou uma pessoa ruim, mas você também é. Ninguém acredita nessa sua pose de pessoa perfeita, ninguém se engana com o seu discurso moralista. Se todo esse seu esforço em parecer bom fosse empregado em coisa melhor você seria tão bem sucedido! Pra deixar claro, não escrevo pra justificar meus atos nem diminuir a sua dor. Quero apenas me despedir, já terminei por aqui e tenho corações maiores para quebrar antes que o meu desapareça por completo.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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