Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Outro clichê
31 de janeiro de 2013 às 11:09 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Nunca fui muito fã de olhos azuis (ou verdes, como preferir), sempre gostei dos castanhos, mas aí conheci os seus e tudo ficou de cabeça para baixo. Levei muito tempo pra me acostumar com a clareza dos teus olhos. E o encontro deles com os meus é uma coisa com a qual vou demorar pra me acostumar.
E você teve tanto medo de que eu te roubasse o coração que acabou roubando o meu primeiro e nem percebeu! Sei que é clichê dizer frases assim, mas no momento tudo o que eu sinto é clichê. O modo como perdoo as suas falhas, o modo como sorrio quando vejo seu nome, o modo como fico corada quando me elogia, é tudo clichê!
Isso sem contar o jeito que você me trata, é clichê quando aperta minhas bochechas para que eu sorria, ou quando belisca a parte macia do meu braço ou então me desconcentra no meio de algo importante. Somos dois velhos clichês, comuns até na nossa falta de resultado, nas nossas falsas resoluções. Somos um perfeito desencontro.
Quer algo mais clichê do que isso? Eu te amei tanto quanto você me amou e ainda assim não pudemos fazer nada. Sorrimos como velhos amigos e nos despedimos como inimigos de guerra. E se sofremos é porque é difícil conviver com a falta do que nunca se teve, a falta do que poderia ter tido. E agora faço questão de você, independente de tudo o que foi dito, de tudo o que foi feito e de todo o clichê.


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A mancha, a tinta e os olhos
18 de janeiro de 2013 às 8:15 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
        Olhou a mancha no jornal. Mancha de tinta preta ou molho ou café. Passou o dedo ao redor sem prestar muita atenção ao caminho percorrido. As letras se embaralhavam misturando-se à mistura tornando o desenho quase impossível de decifrar. Na parede branca podia ver uma enxurrada de letras pretas e garrafais gritando manchetes manchadas de sangue. E escorria até chegar ao chão alcançando os seus pés por baixo da mesa. Rapidamente os ergueu colocando-os pra cima da cadeira tentando não ser queimada pelo mar de lava. Não gritou porque não tinha mais voz e, desesperada, levou as mãos à garganta, os olhos enormes muito abertos, ficou em pé na cadeira sem olhar para cima. Olhava só para o chão que já não estava ali, tinha sido tomado por todas aquelas letras pretas, notícias urgentes que corriam e escorriam e manchavam e queimavam e gritavam! Encarou a janela no minuto em que a música começou a tocar, alta e clara, a vitrola raspando no vizinho e ela podia sentir dentro da própria cabeça. Apertou as têmporas com a palma das mãos, os olhos apertados, a pressão era tanta que ia explodir a qualquer momento. Mas então a formiguinha andando na parede branca e estava tudo limpo. Sem letras, sem grito, sem sangue, sem tinta, só um mar de areia branca fina e leve e o céu azul bem azul claro muito claro quase branco tudo branco e a mesa da sala na praia branca e ela musa em cima da mesa e o vento tinha parado e a mancha já não existia enterrada ali junto ao seu nome e o rosto, aquele rosto... Era o dela que já não reconhecia os próprios olhos borrados de preto, amendoados riscados à giz. Quis chorar com aquela visão, dois olhos negros perdidos no mar de areia branca sem você. 

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Tentei não me apaixonar por você
14 de janeiro de 2013 às 11:59 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Enquanto você me encarava com aqueles enormes olhos castanhos com pupilas dilatadas na sala à meia luz eu tentei não me apaixonar por você. Depois, quando seus lábios encostaram-se aos meus e eu senti de perto o seu perfume impregnando em minha roupa eu tentei não me apaixonar por você. Minhas mãos encontraram seu rosto, sua nuca, seu cabelo, já as suas seguraram firme minha cintura e eu tentei não me apaixonar por você. Eu sorri sentindo sua boca passar pelo meu pescoço e minha orelha, a sua respiração morna e mais uma vez tentei não me apaixonar por você.
Tentei não me apaixonar por você enquanto me afastava ofegante ainda mordendo os lábios, mas você me puxava de volta sorrindo. Depois, tentei não me apaixonar por você quando passei as mãos nas suas costas quentes e mordi seu pescoço. Tentei não me apaixonar por você e minha boca encontrou sua orelha um pouco antes da sua boca reencontrar a minha. Tentei não me apaixonar por você e só consegui sentir seus braços fortes e quentes me puxando cada vez mais perto. Mais uma vez tentei não me apaixonar por você e te vi beijar minha boca devagar e ir embora. 

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O casamento da minha melhor amiga
10 de janeiro de 2013 às 2:02 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Você me olhava com aqueles olhos enormes marejados de lágrimas, falava um pouco rápido e baixo demais, ainda enrolando um pouco a língua (a dicção sempre foi um problema pra você), se agarrava à nossa reconciliação. Ele nos olhava do outro lado da mesa com interesse e curiosidade ardentes ainda que fingisse não olhar.
Eu sorria por não saber o que fazer com as mãos, com o rosto, com a boca. Sorria por não saber o que dizer. Sorria por te ver feliz ainda que eu não estivesse. Sorria por não querer estragar esse momento. Eu nunca tinha te visto assim tão bem. 
Ouvi você falar de sentimentos que eu não conheço, sensações que eu nunca provei e vontades que eu sempre tive. Vi você tentar me explicar tudo isso pra que eu pudesse colocar em um dos meus contos, mas confesso não ter sido capaz de entender.
Não desejo que tudo aconteça como você espera, mas desejo do fundo do meu coração que vocês vivam por um fio! (Um fio de aço) E que as nossas promessas sejam mantidas e que não existam segredos. E que eu nunca mais saia da sua discagem rápida. 
Porque, mesmo que não pareça eu só quero o melhor pra você e fico muito feliz que você tenha encontrado. E no dia que vocês casarem e eu estiver do seu lado na igreja esse vai ser o meu brinde e é com muito prazer que eu ergo minha taça pra vocês. 

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Só mais uma noite de verão
9 de janeiro de 2013 às 2:39 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Abriu os olhos devagar tomando conhecimento de todos os objetos a sua volta. Sentia o couro do sofá quente sob seu rosto e o botão do shorts jeans marcando sua barriga. Tinha uma sensação estranha no corpo inteiro, se mexeu devagar virando-se para o outro lado, mas não fez diferença nenhuma.
Sentia um peso enorme nas pernas. Sentou-se, só então percebeu que ainda estava usando a blusa de moletom e a coberta grossa. De repente sentiu a boca seca, mas era uma secura que ia até a boca do estômago e um calor sem fim. 
Chutou o cobertor para longe e tirou o moletom num movimento rápido e atrapalhado. Um alívio enorme envolveu seu corpo numa brisa suave. Tentou ignorar a sede enquanto tentava se lembrar do momento em que tinha ido dormir. Era quase de manhã e estavam todos no quintal, ventava, e então já estava dormindo. Acordou e foi sozinha para a sala e dormiu no sofá. Não sabia de onde tinha vindo o cobertor. 
Levantou do sofá e andou até o banheiro aproveitando ao máximo aquela brisa suave que entrava pela porta aberta. Surpreendentemente seu rosto estava apresentável. Foi até a cozinha, abriu o armário de copos cuidando para não fazer barulho, pegou a garrafa de água na geladeira e encheu o copo.
Aproveitou a sensação de prazer e alívio enquanto a água gelada molhava seus lábios ressecados e descia por sua garganta como alguém que acabou de correr uma maratona. Passou os olhos pela casa vazia e tentou se lembrar da noite anterior.
Lembrava das conversas na beira da piscina e, depois, as conversas dentro da piscina e ainda as conversas no sofá da sala, mas não conseguia se lembrar da transição entre elas. Lembrava de um pote de cerejas frescas se misturando com uma leitura de poesia e uma brincadeira de dar nós no cabo da cereja. Deu um sorriso um pouco constrangido com essa última lembrança. 
Franziu a sobrancelha enquanto lembrava de ter falado sobre ele e depois sobre ela pra desconhecidos. Lembrou de ter usado muito as palavras "vagabunda" e "horrorosa". Mas não tinha falado só deles e não tinha sido a única a falar... Por alguns minutos se arrependeu por ter tido.  
Passou os olhos pelas portas dos quartos fechados, depois pela sala e cozinha vazia e por último pela piscina através da porta de vidro. Lembrou de ter pego seu caderno no intuito de escrever alguma coisa que já não conseguia lembrar e então deu risada com a lembrança dele passando de mão em mão.
Olhou para o copo em suas mãos e as garrafas vazias em cima da mesa. Tinha sido uma noite boa. E quente. Passou a mão na nuca afastando o cabelo, tomou o segundo copo de água e então voltou para o sofá de couro para dormir pelo resto do dia. 

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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