Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Manual Básico Pra Se Fazer Alguma Coisa
29 de outubro de 2012 às 10:15 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Se o seu alguma coisa for um chá, você coloca água numa chaleira, caneca ou leiteira e ferve. Depois coloca na xícara e mergulha um saquinho de chá. Se o seu alguma coisa for uma colcha de retalhos, você deve escolher vários retalhos e costurá-los. Se o seu alguma coisa for um livro de receitas, você seleciona várias receitas que achar dignas de entrar no livro, digita, diagrama, imprime e encaderna. Se o seu alguma coisa for um filme, escreve o roteiro, seleciona os atores, arruma o cenário, providencia o figurino e um câmera, filma tudo, edita, escolhe a trilha sonora, finaliza. 
No caso de você não saber o que é o seu alguma coisa, escolha várias algumas coisas que estiverem ao seu alcance e comece a fazer até se concentrar numa delas e, quando perceber, já vai esta fazendo alguma coisa. Eu mesma tenho isso às vezes, quero dançar mambo, fazer polichinelos, lavar as roupas de acordo com as etiquetas, cozinhar um jantar completo para doze pessoas, mas aí assisto um filme. Ou jogo majongue.


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Naufrágio em calmaria
22 de outubro de 2012 às 4:39 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Não há além-mar para nós dois
somos náufragos do nosso próprio desespero
nos perdemos em ideais mal formulados.

Não há salvação no buraco que cavamos
então por que ainda o faz?
Gastamos toda a nossa energia em fugir
e agora não temos força para sobreviver,
estamos a deriva em nosso mar de piedade.
Nos odiamos agora mais do que em qualquer outro momento
ainda assim nos amamos louca e freneticamente
a ponto de não nos deixar afogar. 

Te vejo escarrar com gosto o sal que gruda em nossa pele
em minha pele
eu me agarro às migalhas que você sopra pra longe
somos inalcançáveis...
Sucumbindo nesse mar de calmaria.



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Um oceano em ti
21 de outubro de 2012 às 1:40 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
"Agora tem duas horas nos separando"
não, minha querida, duas horas não significam nada, poderia ser um oceano, temos que celebrar que sejam apenas duas horas. Você se diz apenas bêbada, pede que eu não confie em você, mas o que eu posso fazer? Você me ganhou com seu jeito de formar versos das palavras que eu digo. Imagine um oceano entre nós, seis, sete ou oito horas entre as nossas prosas. Não, eu não suportaria. Gosto de ter você sempre por perto, ainda que bêbada. Gosto dos sorrisos que leio em nossas palavras, tanto nas minhas quanto nas suas. Gosto de te ver fantasiar sobre a gente... Um oceano é terrível! Tentei transformar em poema, mas não coube em verso, só me importa transformar em literatura, o que já somos puramente, de qualquer forma. E então me pede que eu não fuja, como poderia? Estou acorrentada a você, te mostrei meus poemas, te fiz música e te dei desenhos. Além do mais, fugir pra onde? Não poderia atravessar um oceano, não sei se conseguiria nadar tanto, meu fôlego é pouco e falho, como o de um velho em hora de morte. Tenho as minhas crenças e você tem seus medos, ou talvez seja o contrário. Me cubro de inseguranças que você insiste em apagar e ainda assim me pede pra não confiar, diz que me entende. Sei apenas que essas horas não serão nada para nós, podemos parecer duas almas loucas e perdidas em meio às incertezas, mas somos de ouro, meu bem, de ouro!



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Desrotina diária
19 de outubro de 2012 às 7:03 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
         Nesse dia ela acordou cedo, já estava de banho tomado terminando seu café enquanto eu cambaleava pela cozinha com a camiseta amassada e a barba por fazer. Ela pegou o jornal e levou o lixo pra fora. Dessa vez, eu que pedi e ela que segurou a porta do elevador. Foi a minha vez de dar um sorriso curto, as bochechas levemente coradas pela pressa. Ela levava um guarda-chuva e eu fui surpreendido pelos pingos incertos. Atravessei a rua imediatamente, enquanto ela andou até a esquina. Fui eu que cheguei no ponto a tempo de ver o ônibus saindo, ela chegou junto com o dela. Às seis da tarde, eu que perfumei o corredor com o cheiro do pão quentinho que trazia numa sacola, mas seus passos mansos só foram ouvidos no corredor bem mais tarde. Nessa noite eu fechei as cortinas para não ver o mundo e ela para que o mundo não a visse. Dessa vez fui eu que dormi no sofá com a televisão ligada, enquanto ela passava a noite em claro. 

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Último verso
8 de outubro de 2012 às 8:36 PM | por Lorena Gonzalez Leal.

Talvez a culpa seja minha, talvez eu tenha te assustado com essa minha mania terrível de transformar tudo em poesia. Talvez eu não devesse ter falado de amor. Talvez eu devesse ter falado menos. Talvez eu tenha esperado demais. Talvez eu não tenha sido feita pra isso.
É, acho que é isso, eu não fui feita para o amor real. Só sirvo pra desilusão, amo tudo o que é platônico. Talvez eu já tenha outro alvo pro meu romantismo lírico. Talvez você tenha sido só uma boa fase pra minha literatura. Talvez essa fase já tenha acabado (tenho tido uma dificuldade incrível para escrever).
Pode ser que eu tenha entendido tudo errado desde o começo. Ou me enganado só no final, pode ser que você nem saiba do que eu estou falando. Pode ser que você nem veja. Pode ser que você me ache louca. Pode ser que eu seja louca. De qualquer modo, não vou mais tentar entender. Aceito minha posição, cultivo minha coleção de desamores. Essa é a ultima vez que te uso como caso de amor. 

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Simples assim
1 de outubro de 2012 às 9:21 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
         Você não é complicado. Complicado é instalar um aparelho de som, complicado é montar um quebra-cabeça de cinco mil peças com a imagem de um quadro do Picasso, complicado é entender o mapa do metrô de Londres, complicado é entender um filme francês, complicado é fazer um filme francês. Complicado é entender Dostoiévski, ou qualquer livro russo, complicado é fazer malabarismo com facas andando na corda bamba, complicado é decidir se Capitu traiu ou não. Física é complicado, beisebol é complicado, cuidar de uma chinchila manca é complicado. Complicado é decidir entre aquarela e giz pastel, ou johnny depp e george clooney, ou ainda rosa chiclete ou cintura baixa. Complicado é segurar a vontade de ir ao banheiro durante um filme inteiro. Coisas complicadas vêm com manual de instruções, tem normas, leis, regras, macetes. Coisas complicadas têm sempre uma forma mais simples. Coisas complicadas têm fórmulas para serem resolvidas. Tem sempre um especialista em coisas complicadas, alguém especializado em instalar aparelhos de som, em montar quebra-cabeças com imagens de quadros do Picasso, em mapas do metrô, em filmes franceses, em Dostoiévski ou qualquer autor russo, em malabarismo com facas em cima da corda bamba e problemas conjugais na literatura brasileira. Existem especialistas em física, em beisebol e em chinchilas mancas. Mas não existem especialistas em você! Você é indecifrável, não tem fórmulas ou macetes que funcionem, não tem manual de instruções (e se tinha, jogaram fora junto com a caixa). Eu visitei bibliotecas e não achei um único livro que me ajudasse a entender seus olhares. Acontece que você não é complicado porque não tem como descomplicar! Eu não sei bem o que você é, mas você é inconstante. Não quero fazer metáforas clichês e bregas porque você provavelmente odiaria, e não diria nada porque você é assim. Complicado é terminar de escrever isso aqui, mas você... Você só finge ser complicado, não sei se por medo ou por qual motivo louco. Você dificulta as coisas, podia ser tudo tão simples. Você não é complicado, isso é só uma desculpa, um disfarce, você se esconde atrás desse título "sou complicado" porque não quer que vejam quão simples você é. Fica aí morrendo de medo de que alguém tenha coragem de tentar te descomplicar, coisa que eu não vou fazer, pode ficar tranquilo. Na verdade eu até te entendo, porque eu também sou assim, ou era, não sei, e eu não sabia como é difícil lidar com isso. Você não é complicado, complicado é aguentar mais um texto sobre você.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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