Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Em silêncio
28 de agosto de 2012 às 11:06 PM | por Lorena Gonzalez.

Era uma quinta-feira, seu dia de folga. Nada em especial naquela noite, não estava muito frio nem muito quente, nem muito estrelado nem muito escuro. Abriu a porta do seu apartamento num desses prédios estilo hotel americano, três andares e corredor externo. Enfim, abriu a porta e saiu. Acendeu um cigarro e apoiou os braços na sacada. Levantou o pé direito e o apoiou na panturrilha esquerda. Não tinha nenhum traço especial, apenas um rosto comum e cansado.
Tragava o cigarro com uma atenção peculiar. A barra da regata branca cobria o cós do short cinza moletom, que era levemente curto na parte de trás. Acendi meu próprio cigarro. Ela olhava pra longe, sem olhar para nada em particular. O telefone começou a tocar, ela ignorou por um tempo, jogou o cigarro pela sacada e entrou no apartamento, olhando uma vez para o meu carro estacionado.
Não fechou a porta, ainda podia vê-la gesticulando lentamente, não estava brava ou estressada, parecia até um pouco desinteressada. Joguei o meu cigarro no chão, perto do carro. Vi um farol na rua e me virei pra olhar, um carro passou e virou a esquina. Quando olhei de novo, a luz do apartamento estava apagada e a porta fechada. Tentei ver se a cortina da janela estava fechada.
-Então você está mesmo me observando? – Ela estava parada, as mãos nos bolsos do moletom cinza que tinha colocado por cima da regata. Continuava descalça. – Tem fogo?
Acendi o cigarro que ela colocou na boca. Ela encostou ao meu lado no carro e ficamos os dois em silêncio. Um pouco assustado (afinal, fui pego de surpresa) não conseguia tirar os olhos dela. Por sua vez, ela não olhou para mim nem por um momento. Abri a boca pra falar, mas fiquei apenas fitando-a enquanto tragava o seu cigarro.
-Sabe o que eu odeio nesse lugar? Tem sempre alguém nos observando. – Ela gesticulava com o cigarro na mão, o rosto virado levemente na minha direção, mas olhando algum ponto distante – Não posso fumar um cigarro sem ter alguém me dizendo que faz mal.
Senti minha boca secar. Ela estava falando de mim? Eu estava observando... Mas nunca criticaria um movimento dela. Era tudo tão belo. De um jeito errado, mas belo. Virei o rosto para esconder a vermelhidão que se espalhava por ele, podia sentir o calor. Passei a mão pelo cabelo, não sabia o que dizer.
-Mas é isso que a gente quer, não é? Atenção. – Ela olhou pra mim pela primeira vez. Fiquei fascinado com a profundidade dos seus olhos castanhos – E você, estranho, o que você quer?
-Eu quero o mundo. – Tentei sorrir – Mas nessa noite me contento com o seu nome e talvez o telefone.
-Sem nomes... – Ela sorriu e voltou a olhar o longe – Você me deu uma resposta padrão, poética. Não me diga que é um desses românticos que andam por aí dizendo que o amor é a única coisa que importa, só o amor pode nos salvar e essas coisas.
-Qual é o problema do romantismo? – Olhei sério para ela que fumava sorrindo.
-Me diz o que você faz da vida? Alias, não diz, eu descubro... Você é artista? – Ela soprou a fumaça devagar.
-Mais ou menos... –Corei, não pude evitar. Respirei aquela fumaça.
-E o que você faz? Pintor ou poeta? – Sentia um leve tom de ironia na fala dela, o que me fascinava ainda mais.
-Um pouco de cada. – sorri – Desenho, mas escrevo alguns poemas...
 -Ah, que ótimo! Um poeta pintor! – Ela riu olhando para longe. – E sobre o que você escreve?
-Você não vai gostar... Talvez eu seja romântico demais pra você. – Sorri enquanto chutava uma pedra – Escrevo sobre a vida, sobre as pessoas, sobre a cidade, meus sonhos, meus medos... E desenho o tempo, o mundo como eu vejo. Desenho amores e batalhas perdidas. Acabo escrevendo a mesma coisa que desenho, mas com outras palavras, outros símbolos.
Não sabia se ela estava realmente me escutando. Na verdade, ela parecia não prestar atenção em nada. Até o cigarro jazia esquecido entre seus dedos. O vento deixou sua perna arrepiada, os pés descalços explorando distraidamente o cimento desgastado, o cabelo balançando com o vento.
-Você deve pensar que eu sou uma cética insensível e cínica... – Jogou o cigarro no chão e pisou em cima, franzindo um pouco as sobrancelhas numa contida careta de dor.
-Não acho isso... – Comecei a responder com um leve sorriso no rosto.
-Mas eu sou. – Ela olhou pra mim.
Olhou em meus olhos como se quisesse que eu visse sua alma. Como se quisesse que eu percebesse que não existia mais nada de sonhos ou medos ou amores ou batalhas dentro dela. Estava ainda mais linda do que em qualquer outro momento. Me aproximei devagar, parei a meio caminho de tocar seu cabelo. De repente uma luz muito forte iluminou seu rosto. Me virei para olhar, um carro com o farol alto virou a esquina.
Enfim, sobrou apenas a luz fraca do poste perto de mim. A luz do seu apartamento estava apagada, a porta e as cortinas fechadas. Fiquei ainda um tempo olhando a janela fechada. Percebi o sorriso bobo no meu rosto, procurei ainda por evidências, talvez um cigarro apagado. Entrei no carro, procurei por meu caderno de desenhos. Se ao menos tivesse encontrado o cigarro... 

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A triste história da rosa
22 de agosto de 2012 às 10:00 PM | por Lorena Gonzalez.

Parece que já faz parte de mim esse sentimento, encrustado na minha pele, sugando meu sangue e comendo minha carne. Isso de sentir que nada disso me interessa, que tudo que traz seu nome não vale a pena. Me sinto cansada de te ver tentando se provar, tentando mostrar algo que eu nem sei o que é, pois não consigo ver por baixo de tantos floreios. E a sua falta de interesse... Não acredito mais nas suas perguntas e acredito menos ainda nas minhas meias respostas. Mas afinal, o que eu posso fazer? É mais fácil demonstrar desinteresse quando tem alguém para perceber.
Não é por mal, mas não tenho mais paciência para essas cenas e esses jogos e esses números de dança (ou de circo) que começam e não acabam e me sufocam e te derrubam e nos afastam. Afinal, foi tudo fogo de palha, não concorda? Hoje já não somos nem brasa. E, pra ser sincera, não sei nem se eu sinto falta. Não tem nada que eu queira fazer para consertar, apenas me escondo e fujo da situação.
Percebe como é errado dividirmos a mesma casa quando não dividimos o mesmo mundo nem o mesmo universo? É como se não falássemos a mesma língua e não nos interessássemos em nos entender. Cada um fala a parte que lhe cabe sem ouvir o que se passa. Tenho a minha vida e você não cabe nela. Assim como você tem a sua e eu só posso vê-la pelo vidro da porta. Nós nos prendemos por muito tempo nessa quase brincadeira coberta de indiretas e sentimentos mal resolvidos. Você me tirou da discagem rápida e eu te escrevi um poema. Licença poética. 
E aí acabou. Como aquela luz que risca o céu de repente escurecido numa tarde de tempestade, como uma rosa que morre despercebida, sua voz apareceu quase em silêncio, apressada e atropelada, e então eu percebi, enfim acabou.

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Secretária Eletrônica
3 de agosto de 2012 às 7:56 PM | por Lorena Gonzalez.
Você me deixou
e deixou sua escova de dentes e a lâmina de barbear,
eu não sabia se ia voltar, então eu guardei.

Mas suas cuecas, que eu lavei,
eu joguei pela janela.
Eu sei que você está com ela.

Não apaguei seu número da minha agenda,
mas salvei como "não atenda".
E o seu pijama emprestei para um amigo
que vai passar a noite, espero que não se importe.

Sua coleção do Star Wars
vendi num bazar de garagem,
me rendeu essa tatuagem.

Não anotei seus recados,
nem paguei a conta do seu celular.
E aquele cartão que me deu,
eu estourei o limite.

As cordas novas do seu violão
fizeram uma bela forca,
do tamanho exato do boneco que eu fiz
(segui as instruções do livro).
Sorte que eu ainda tinha aqueles seus cabelos
no filtro do aspirador
(sorte é você estar ficando careca).

Não achei uma galinha preta.
Fiz tudo o que tinha no meu livro de vodu
não te quero mal, só espero que você broxe.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




Agradecimentos.

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