Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Aquele furo na história
29 de maio de 2012 às 5:30 PM | por Lorena Gonzalez.

Tudo começou com uma Coca-Cola furada. Terminou assim também. Se é que terminou. Acredito que tenha terminado. Cara, faz tempo que não conto essa história. Na verdade, eu nunca contei pra ninguém... Não exatamente. Mas muita gente fez parte disso. Tudo bem, estou começando a me enrolar aqui. A verdade é que eu tenho um pouco de vergonha. Não sei por que, mas fiquei, sei lá... Não, eu não estou vermelho!
Era uma festa junina, mas não estava tão frio quanto o esperado. Não era uma festa grande, na verdade nem lembro quem tinha organizado. Muito menos porque eu estava lá. O que importa é que eu estava. E ela também. Calma, vou chegar lá. Estava com um amigo, Agora que eu parei pra pensar, não me lembro muito bem de com quem eu estava.
De fato, lembro-me daquele dia inteiro como se fosse ontem, até o momento em que a vi. Fui comprar uma Coca na barraca do refrigerante. Comprei minha ficha enquanto escutava atenciosamente o que o tal do amigo me contava. Mas quando eu encostei na janela e ela sorriu pra mim, alguém apertou o botão “mute”. Demorei pra entender que ela tinha perguntado o que eu queria. Entreguei a ficha e pedi uma Coca. Não sorri. Acho que apertei a boca, daquele jeito que a gente faz quando não sabe o que fazer.
Ela sorria. Estava usando um desses vestidos de festa junina e um laço de fita no cabelo. Tinha pintinhas desenhadas nas bochechas. Típico de festa junina. Olhei para o outro lado enquanto ela enfiava o braço inteiro dentro do freezer. Tinha muita gente naquela sala. Ela usava uma daquelas luvas verde-limão e quando pegou uma latinha ela pulou de sua mão e caiu de novo no freezer. Rindo, ela olhou disfarçadamente para os lados enquanto tirava a lata suicida do caminho. Fui mais do que rápido em olhar para o outro lado.
-Aqui, canudo ou copo? – Ela me entregou a lata.
-Não precisa.
Dei uns cinco passos para longe da janela e percebi que tinha alguma coisa errada. Minha mão estava molhada, segurei a latinha no alto e procurei. Encontrei. Era um furo e tanto. Não que fosse muito grande, mas um furo é sempre um furo. Principalmente na lata de Coca. Por algum motivo obscuro, a única coisa que eu queria era sair logo dali. Passar despercebido.
-Ei, tem alguma coisa errada?
-Não. – Mal consegui olhar para ela. Realmente não sei por que. Abri a minha Coca e saí logo, nem olhei para trás.
-A lata dele veio furada. – Ainda ouvi alguém que estava perto explicar para ela.
Não prestei atenção em mais nada, o amigo que estava comigo me disse que ela colocou a cabeça para fora da janela e continuou olhando pra gente. Fiquei vermelho, engoli o máximo de refrigerante que eu pude ignorando a sensação do gás no meu nariz. Mudei o assunto da conversa como se nada tivesse acontecido. Lavei minha mão.
Fingi não pensar mais na tal da Coca furada. Sentei, andei, conversei, comi... Não me atrevi a comprar nenhum outro refrigerante. Encontrei amigos que eu não via há muito tempo. Sentia falta dessas conversas descontraídas. Mas, não se pode fugir do destino. (Não que eu acredite em destino). Estava indo embora quando me virei e a vi perto de mim.
-Ei, por que você não disse que a sua Coca tava furada? Eu trocava pra você... – Não sei que palavra eu poderia usar pra descrever o tom de voz que ela usou.
-Ah, não, tudo bem... Não tem problema.
-Lucas, não é? Fico te devendo uma Coca! – Ela sorriu e piscou. Talvez eu tenha imaginado isso.
-Eu já tava indo embora. – Consegui não gaguejar. – Você me paga na próxima vez.
Consegui sorrir. Fui embora. Ela estava sorrindo também. Não sei por que, não sei explicar, mas alguma coisa ficou quente dentro de mim. Como se eu tivesse ficado aquecido, morno por dentro. Eu sei que parece idiota... Mas um dia você vai ter essa sensação e vai entender do que eu estou falando.
Nessa noite, fiquei rindo sozinho, consegui rir da minha Coca furada. Repeti mil vezes a cena na minha cabeça, escutei mil vezes ela me dizendo “Fico te devendo uma Coca!” e sorria porque ela lembrava meu nome. Não, meninas, vocês não são as únicas que repassam todos os detalhes de um bom momento mentalmente. Passei uma semana só pensando nela. Esperava encontra-la na rua a qualquer momento.
Até que eu voltei para a minha cidade atual. Desculpe, não a atual. Mas a que eu morava no momento. Por um mês ainda pensei nisso. Consegui até falar com ela algumas outras vezes na nossa querida internet. O tempo passa. A gente cresce, as coisas mudam, o tempo passa.
Acontece que essa história de destino é uma coisa engraçada. A gente vive dizendo que não acredita, que escrevemos nossa própria história, que tem que correr atrás, e todas as outras baboseiras que a gente pode inventar. Sabe essa coisa de deixar acontecer porque o que tiver que ser será? Não sei se eu acredito, só sei que funcionou.
Eu já nem pensava mais nisso tudo, mal lembrava do que tinha acontecido. O que era meio mentira, porque é difícil não se lembrar de uma Coca-Cola furada. Já não pensava nela como a mulher da minha vida. Não que eu tivesse pensado nela desse jeito algum dia. Voltei para a tal cidade pra passar um feriado, não me lembro qual. Saí com uns familiares e alguns amigos, era um lugar legal... Tranquilo sabe? Não estava me divertindo horrores, mas não queria morrer e nem preferia estar em casa.
Até que aconteceu o imprevisível! Falando assim, até parece que tudo se fez mágica, não, foi coisa boba, bem pouco. No momento, eu estava um pouco distraído. Alguém contava alguma história empolgante e divertida sobre algo que acontecera e eu estava recostado na cadeira pensando em alguma coisa. Aí o garçom me entregou uma lata de Coca com um bilhete escrito “A primeira Coca furada a gente nunca esquece”.
-A moça daquela mesa ali que mandou. – Ele apontou para uma mesa do outro lado do bar. Eu sorri automaticamente. Seria possível?
Olhei para a mesa que ele apontava. Não sabia quanto tempo tinha se passado desde a última vez, mas reconheceria aquele sorriso em qualquer lugar. Ela ergueu o copo brindando a distancia. Tive que rir. Abaixei a cabeça. O amigo que estava falando me olhou sorrindo como quem diz “Pô, cara, você tá estragando a minha história! Da licença?”, mas eu não me importei.
Não soube direito o que fazer, ela ainda sorria para mim, queria levantar e ir até ela, mas não sabia muito bem o protocolo. O que a gente faz quando uma garota nos oferece uma bebida? Achava que essa coisa de mandar bebida na mesa do outro só acontecia em filme. Esperei por um sinal ou por coragem. Até que meu amigo deu uma deixa na história. Ela não olhava mais pra mim. Me levantei sem pedir licença. Esqueci dos bons modos.
-Disseram que é aqui que eu devo tratar sobre uma Coca-Cola furada.
-Ah não, eu já paguei a minha dívida. – Ela sorriu parecendo levemente surpresa.
-Então, parece que houve um pequeno engano, a Coca que você me mandou... – Fiz uma pequena pausa, vi seu olhar intrigado e não pude deixar de rir – Não estava furada. - Dei de ombros, ela riu.
 -Não acredito! Eu pedi especificamente por uma Coca furada. –Ela se fez de indignada – O atendimento aqui já foi melhor.
E então se seguiu aquele breve momento de silêncio. Alguma coisa estava acontecendo bem ali, debaixo dos nossos narizes, mas ninguém percebeu. É como se tivesse alguém brincando com a saturação do mundo. As cores iam sumindo e de repente voltavam com tudo, mais fortes, mais vivas e até mais estranhas. Não, eu juro que não uso drogas.
-Você quer sentar? – Ela puxou uma cadeira vazia do seu lado.
Lembrei de olhar para a minha mesa, meus amigos pareciam estar muito bem sem mim. Achei que não teria problema nenhum se eu ficasse por ali mais um pouco. Sentei. Nesse momento o pânico me invadiu. Eu estava ali, isso estava acontecendo. Depois de todo aquele tempo (nem tinha sido tanto, mas naquela hora me parecia uma eternidade) eu estava com ela e não fazia ideia do que fazer, do que falar. Como lidar com essa situação?
Senti um olhar de cumplicidade. Ela estava tão perdida quanto eu. Seu sorriso parecia querer dizer “ei, relaxe... Eu também não faço ideia do que estou fazendo aqui!” e isso era reconfortante. Parei de tentar controlar a situação, parece clichê, mas só deixei a noite passar. Não fui apresentado aos seus amigos e não me importei com isso. Ouvi as histórias, ri, sorri, não precisei me esforçar nem fingir...
-Vamos sair daqui... – Segurei o seu braço, talvez tenha sido repentino, mas fui bem delicado.
-O que? – Ela franziu as sobrancelhas, mas ainda assim sorria.
-Eu e você... – Não me preocupava com possíveis silêncios que viriam a seguir... Não tinha mais medo do silêncio, pelo menos não com ela. Com ela, qualquer silêncio seria mais do que eu poderia querer. – Em algum lugar onde eu possa te comprar uma Coca-Cola furada.

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Invenção / Inversão
27 de maio de 2012 às 12:14 PM | por Lorena Gonzalez.
Se eu tivesse inventado o mundo
teria um cachorro que seria sempre filhote,
mulher na TPM teria atendimento preferencial
e direito a chocolate de graça
sem ganhar nem um quilo por isso.

Se o mundo seguisse o meu projeto
teatro seria mais importante que futebol,
não existiria sorvete de milho
e Kinder Ovo e Häagen-Dazs seriam brindes no supermercado.

Se tivessem pedido a minha opinião
inventaria você do meu lado
e bastaria para nós dois.


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Cartas secretas para um amigo anônimo II
7 de maio de 2012 às 8:37 PM | por Lorena Gonzalez.

São Paulo, 30 de abril de 2012

Querido amigo,

Me desculpe pela inconveniência, não sabia que você tinha alguém. Espero não ter causado nenhum dano. Já me disseram que meu timing é horrível. Mas é que, ultimamente, uns fantasmas voltaram a aparecer e eu não posso te perder agora!
Sei que não tenho nenhum direito de te pedir para ficar, nem sei direito o que eu to fazendo. Você faz ideia de quanto tempo faz que eu não desejo feliz aniversário para alguém? Sinto minhas mãos e pés gelados e tudo o que eu posso fazer é colocar uma meia. O bom do inverno é que as coisas ficam frias mais rápido. O problema do inverno é que as coisas ficam frias mais rápido...
Às vezes saio para caminhar, mas os dias têm sido todos iguais, cinzas e frios. Continuam sendo muito bonitos, levo uma câmera comigo, mas é pouco para captar toda a solidão que vejo e sinto. Vi esse casal num parque, no dia em que estava sem câmera, pensei em você. É porque você fala tanto e tão bem sobre amor, sobre a luta, e eu tenho fantasmas.
Fantasmas que vão e voltam como se eu os tivesse chamado. Como se eles soubessem quando eu me sinto assim. Faz tempo que eu já não tenho um motivo maior. Faz tempo que eu faço chocolate quente pra uma pessoa.
Tenho tido muito essa sensação de "falei o que não devia no momento errado". O pior é que eu sei que, no final, nem vai fazer diferença. Ah, meu amigo, desculpe por te chatear com isso, aproveite o seu momento.

Atenciosamente,
Sua amiga de longa data.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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