Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Um amor (e um) clichê
14 de março de 2012 às 9:15 PM | por Lorena Gonzalez.

Nós temos essa mania de achar que o primeiro amor (aquele da infância, brincando no recreio) é o mais puro e sincero do mundo. Nenhum amor que venha depois é tão desprovido de segundas, terceiras ou quaisquer outras intenções. Eu também pensava assim, até descobrir o amor da minha vida.
É normal esperar que, conforme o tempo passa, os amores sejam mais maduros, mais lógicos e sensatos. Consequentemente tudo acaba sendo menos romântico e nem um pouco espontâneo. Fazer o que, é assim que as pessoas são hoje em dia.
Mas é tão bom saber que ainda existe aquele amor despreocupado e despretensioso. Uma pena que nem todos possam senti-lo. Eu senti. Eu encontrei o amor da minha vida e querem saber o que eu fiz? Nada. Bastou saber que ele estava ali e que existia, eu não ousaria contaminá-lo com a minha humanidade.
Preciso contar minha história porque é um peso guardá-la só para mim. (No fundo, espero que vocês também possam conhecera sensação, ainda que através da minha história). A verdade é que eu não estava esperando que isso acontecesse.  Saí de casa com o único propósito de ouvir música boa e me divertir com meus amigos.
A música estava boa, eu estava me divertindo com os meus amigos (como eu não me divertia a muito tempo) e foi nesse momento que aconteceu. Encostei no bar e consegui chamar a atenção do barman, ele me avisou que demoraria um pouco, pegou minha comanda e se afastou. Voltei a olhar para o palco, a banda tocando animadamente.
Podia ver meus amigos dali, eles dançavam e cantavam alto. Não pude conter o riso. Continuei passando os olhos pela pista e então eu a vi. Parada no meio do lugar, mãos nos bolsos e olhar (o que? Triste? Cansado?)...
Fiquei olhando para ela, todas as pessoas a sua volta cantavam junto com a banda, os braços erguidos, mas nenhuma delas transparecia tanta emoção. Quem era aquela garota sozinha, absorvendo tudo de tal forma que nem piscava. Naquele momento ela se libertava de todas as suas amarras já não existia nenhum segredo que não fosse revelado e, ainda assim, as mãos nos bolsos escondiam alguma coisa.
É possível? Revelar todos os segredos, se abrir completamente e ainda esconder alguma coisa... Amei aquela menina no momento em que vi sua história. Sim, vi sua história e fiz parte dela. Me apaixonei por seu mundo. E já estava tão dentro dele que nem percebi o barman me entregando o copo.
Quando voltei a olhar para ela, ela estava olhando pra mim. Fiquei sem reação. Vi os três segundos se transformarem em três séculos. Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro três vezes enquanto seus olhos castanhos penetravam no fundo da minha alma. Tenho certeza de que se alguém pudesse olhar, veria aqueles olhos castanhos tatuados dentro de mim.
Foi tão inesperado, eu estava tão surpreso que talvez nem tenha conseguido dizer pra ela o que eu queria. Queria mostrar que eu sabia quem ela era, que eu sabia o que ela estava passando e que, acima de tudo, eu a amava, mas não queria nada dela! Tentei dizer que estava ali pra ela e por ela, mas acho que só consegui desviar os olhos assustado e piscar mais vezes que o necessário.
Naquele momento estava sem defesas, tinha baixado a guarda e tenho certeza que deixei transparecer. Passou o momento. Ninguém mais no bar inteiro percebeu, mas eu já não era o mesmo. Sentia ainda aqueles olhos dentro de mim, e ter conhecido todo aquele mundo me fez olhar o meu com outra perspectiva.
Ela ficou ainda um tempo parada, se rendeu, conhecia essa música. Cantou de olhos fechados, ignorando as pessoas que passavam por ela. Eu fui aos poucos recuperando o ritmo da respiração, meu coração pareia fazer parte da música. Sorri. Não conseguia tirar os olhos dela.
Acabou a música, ela respirou fundo e sorriu. Não olhou mais para onde eu estava. Falou alguma coisa com sua amiga e as duas se misturaram com as outras pessoas enquanto tentavam chegar até a porta. Acabou. Devolvi meu copo no balcão, olhei mais uma vez para onde ela tinha estado. Sorri.
A banda ainda tocava, as pessoas ainda cantavam, os mais animados ainda dançavam e muitos ainda bebiam. Eu... Eu ainda sorria. Mas anda continuava igual porque, apesar do clichê, eu sabia que o amor não tinha acabado e não continuava igual.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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