Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Só pra lembrar que eu te amo
19 de maio de 2011 às 9:54 PM | por Lorena Gonzalez.
-Papai, quem é essa na foto? - Ela apontava para uma foto deixada em cima da cama, ao lado de uma carta.
-É a sua mãe. - Ele sorriu para ela.
Por um momento ela observou a foto em silêncio. Se levantou do colo do pai, pegou a foto na mão, olhou, devolveu na cama, andou pelo quarto. Parou em frente o espelho, confusa, e perguntou:
-Eu conheci a mamãe?
-Mas é claro que sim!- O pai riu.
-Por que eu não consigo lembrar dela?- Ela olhou séria para ele.
-Porque você era muito pequena, não teria como lembrar...
Mas uma vez ela andou pelo quarto, de um lado para o outro, contornando a cama. Olhou pela janela e mais uma vez para o pai.
-Lá, no lugar onde ela ta, eles recebem cartas?
-Cartas? - Ele vacilou, ela estava séria, ele sorriu.
-É, você disse que ela ta num lugar diferente agora, como é esse lugar? É como se fosse outro país?
-Mais ou menos isso, meu amor...
-Então ela pode receber cartas?
-Na verdade... Acho que sim...
-Mas se é lá no céu, como eu faço pra mandar uma carta? Eu vou precisar de um pombo correio? - Ela sentou na cama, seriamente preocupada.
-Não, não. - seu pai riu - Uma vez por ano um anjo passa de casa em casa pra pegar os recados e levar pra lá. Se você quiser é só escrever a carta, nesse dia o anjo passa aqui e pega.
-E que dia ele passa?
-Dia 13 de junho.
-13 de junho ainda vai demorar muito. - Ela desistiu de contar nos dedos - E se eu quiser falar com ela nos outros dias do ano?
-Aí você pode fechar os olhos, se concentrar um pouquinho e pronto.
-E como eu vou saber que ela ta escutando?
-Você vai sentir...
-Posso falar com ela agora?
-Mas é claro que pode.
Ela fechou os olhos e ficou um tempo em silêncio. Depois abriu, pegou a foto na mão, olhou bem, segurou a mão do pai e fechou os olhos novamente.
-Oi mãe... - Ela falava cautelosa. - Me desculpe por não lembrar de você, mas o papai disse que eu era muito pequena pra lembrar... Ele me mostrou uma foto sua e disse que eu sou muito parecida com você quando tinha a minha idade. Ele também disse que se eu fechar os olhos eu posso falar com você, e que você ta sempre me olhando do lugar onde você mora. E também me contou sobre o anjinho que busca cartas, então esse ano eu vou te mandar uma carta, igual as que eu ganho todo aniversário. Sabia que eu já vou pra escola? A minha professora é legal, mas sempre da bronca nos meninos que não fazem as atividades... Tem um menino que sempre chora e nunca quer ficar na escola, mas eu nunca chorei! Ah, e eu consegui subir no galho mais alto da árvore da casa da vovó, ela ficou desesperada "Desce! Amanda, desce daí! Você vai cair, quero só ver! Desce já menina!" mas eu não caí, nem me machuquei. Até consegui pegar uma manga. Depois eu fiz bolo com a vovó, bolo de cenoura que é o meu preferido. Você também gostava, não gostava? Acho melhor eu ir dormir agora, já ta ficando tarde e amanhã eu tenho que acordar cedo pra ir pra escola, é dia do brinquedo, o meu dia preferido. A vovó me deu uma boneca que era sua quando você era criança, é a minha boneca preferida, mas eu não levo ela pra escola, pra não estragar...Ah, alias, eu chamo Amanda. O papai disse que significa "digna de ser amada". Amanhã a gente conversa mais, mamãe, boa noite. - Ela abriu os olhos e sorriu pro pai. Mas então se lembrou de um detalhe e fechou os olhos de novo - Esqueci de uma coisa, eu te amo.

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Destitulado (em resposta)
13 de maio de 2011 às 2:09 PM | por Lorena Gonzalez.
Um amigo meu disse que o título é desnecessário, disse que ele é um rótulo que "pode facilmente ser arrancado sem causar nenhum prejuízo ao conteúdo da embalagem". Sem a autorização desse amigo tomei a liberdade de escrever uma resposta expondo a minha opinião sobre o assunto.
Ao contrário do que ele pensa, eu acho que o título faz toda a diferença.
O título é como um primeiro olhar, aquele primeiro sorriso que você vê, pelo qual você se apaixona. Como quando você conhece uma pessoa nova e ela tem o sorriso mais lindo do mundo. Depois, ao ler o texto, você descobre segredos que você nem imaginava e tornam aquele título ainda mais bonito, mais atraente.
Machado de Assis já dizia no livro Dom Casmurro "Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto."

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Pra ele (e depois pra ela).
7 de maio de 2011 às 12:48 AM | por Lorena Gonzalez.
A gente aproveita tão pouco a vida enquanto temos tempo e aí, quando percebemos que a coisa aperta, choramos, esperneamos e imploramos por mais tempo, mais alguns dias, um dia até seria suficiente. Se soubéssemos aproveitar o tempo que temos, não teríamos que brigar por mais... Já que eu não tive mais tempo, vou ter que me virar com esse que me resta.
Espero que você me perdoe por não ter sido completamente franca com você, espero que você me perdoe por ter permitido que isso chegasse tão longe, por não ter te falado tudo antes, por não ter explicado minha situação, por ter escondido minhas reais condições, por ter deixado, ou até mesmo por ter feito você se apaixonar, mesmo sabendo como tudo acabaria.
Eu não vou pedir que você chore muito menos que não chore. Não vou pedir que se guarde pra mim, quero que você viva o máximo que puder, viva por mim. Quero que você tenha todos os amores que quiser, só não se esqueça do nosso. E saiba que, por mais que às vezes eu não tenha demonstrado, eu te amei como jamais poderia amar de novo. E eu sei que você também me amou e sou muito grata por tudo o que você me fez, por tudo que me deu, por todas as alegrias, pelo que eu cresci ao seu lado. Você me tornou uma pessoa muito melhor.
Peço que cuide bem da nossa menina, que nunca a deixe esquecer o quanto eu a amei, dê a ela o nome que quiser, só não dê o meu. Dê a ela todo o amor que eu daria, mas não a prenda demais. Quando escolher alguém pra estar ao seu lado, certifique-se de que será bom pra ela também. Certifique-se de que ela coma salada e faça a lição de casa, mas deixe que ela brinque na rua. Faça com que ela saiba que tudo o que eu mais queria era poder estar com ela, ajudando-a a crescer, e eu espero que ela me perdoe por não estar.
Não posso me demorar mais, não tenho tempo pra isso... Sendo assim, despeço-me de vocês dois, como se eu fosse à padaria e já voltasse pra que não tenha dor na despedida. Afinal, estarei esperando por vocês, aonde quer que eu esteja. Amo os dois como nunca amei nada na vida. 
-
Ele colocou o papel em cima da cama, junto com uma coleção de fotos, todos já amassados de tão vistos. Respirou fundo como sempre precisava fazer ao terminar de ler a carta. Uma menininha loira abriu a porta do quarto e entrou correndo. Pulou no seu colo, abraçando-o. “Ela se chama Amanda.”

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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