Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

In a place where we only say goodbye...
16 de março de 2011 às 1:49 PM | por Lorena Gonzalez.
Alberto tinha pressa pra chegar em casa. Levava ótimas notícias para sua esposa, grávida do primeiro filho. Ele ria sozinho lembrando da conversa com o chefe, da promoção recebida. Dirigia sua moto ainda cego com a perspectiva de uma viagem de férias com a família, a reforma do quarto do bebê. Poderia até comprar um berço novo! Além daquele carro usado que ele viu anunciado no jornal. Se alguém lhe perguntasse como foi o acidente e como foi parar no hospital, ele não saberia dizer.
-Temos que fazer uma cirurgia de emergência! Alguém tente contatar a família dele. – O médico, alto e loiro, empurrava a maca até a sala de cirurgia. – Preciso de um sedativo!
Ele colocou as luvas, preparando-se para a cirurgia, enquanto os enfermeiros preparavam o paciente. Fez o sinal da cruz e uma prece silenciosa antes de começar. Geralmente ele ia até a capela antes das cirurgias e acendia uma vela, mas dessa vez não teve tempo. Logo a sala de cirurgia ficou repleta de mãos que trabalhavam agilmente administrando instrumentos médicos precisos.
Tudo corria bem, até que, com um singelo e quase brincalhão “puf”, todos os aparelhos se desligaram juntamente com as luzes. Por uma fração de segundo, ninguém se mexeu, ninguém disse nada. Podia se ouvir a confusão de passos no corredor. Um enfermeiro entrou apressado carregando uma lâmpada de emergência. As mãos jovens do médico trabalhavam mais ágeis que nunca, os olhos verdes apertados, a testa e as grossas sobrancelhas franzidas de tensão.
Na sala de espera, os pais de Alberto se apoiavam em silêncio, os rostos preocupados iluminados pela luz amarelada das velas. Não relaxaram quando as luzes voltaram a acender. Dois médicos vinham em sua direção. O primeiro, alto de ombros largos, escondia um escapulário embaixo da camisa branca:
-Eu fiz o que pude... Sinto muito. – Os olhos verdes cheios de mágoa e culpa.
A mãe de Alberto escondeu o rosto nas mãos e abraçou o marido. O segundo médico, mais baixo e moreno que o outro, esperou um momento antes de dar a notícia:
-Eu sinto muito pelo seu filho... Mas sua nora acaba de dar a luz.






ps: o nome é uma referência à música What Sarah Said da banda Death Cab For Cutie.

4 comentários

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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