Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Mais uma sobre o Tempo
11 de fevereiro de 2011 às 10:38 PM | por Lorena Gonzalez.
Um belo dia, na empresa do tempo:
-Bom dia, posso ajudá-lo?
-Pode sim, eu gostaria de ver o Tempo.
-E o senhor tem hora marcada?
-Hora marcada? É preciso?
-Claro que é preciso! O senhor Tempo é muito ocupado, vive pra lá e pra cá, sempre preocupado com o relógio. Se ele for parar pra atender todo mundo que vem aqui correndo afobado perderia horas e horas e olha que perder uma hora que seja não é coisa pouca.
-Mas eu prometo que serei rápido. Vou direto ao ponto, não vou matar tempo.
-Matar o Tempo? - Ela soltou uma exclamação e tapou a boca com as mãos - O que você está dizendo? Olha que eu chamo os seguranças.
-Não! Me desculpe, você me entendeu mal. Eu quis dizer que não vou desperdiçar horas.
-Ufa. Sendo assim eu fico mais tranquila. Mas me desculpe, é impossível fazer qualquer coisa por você. O senhor Tempo não pode atendê-lo.
-Ah, por favor! Deve haver algo que você possa fazer por mim! É realmente importante.
-Eu posso... Não, não vai dar. Olha, faz assim, eu não prometo nada, mas você tem que ir até a Espera.
-Tudo bem, sem problemas. Onde é a espera?
-Primeiro andar, primeira porta à direita.
Ele subiu aos pulos.
-E o senhor quem é?
-Eu sou o Amor. Vim ver o Tempo.
-Sem hora marcada... Não sei se vai ser possível...
-Ah paciência! Eu já passei por isso antes...
-Ahn... Desculpe, mas eu sou a Espera. Paciência é a moça do andar de baixo.
-Não, não foi isso... Ah, deixa pra lá. Você vai ou não vai me deixar ver o Tempo?
-Olhe, senhor, não é questão de eu deixar ou não nem do Tempo permitir. Acontece que ele é realmente ocupado e eu não sei se ele poderá lhe dar a devida atenção.
-Então faz um favor pra mim... Eu gostaria de fazer uma reclamação formal, você pode anotar o recado?
-Claro, é só dizer e eu garanto que chegará até ele antes que você possa dizer "anticonstitucional".
-Ahn... Ok. Diz pra ele que eu não estou gostando nada nada do jeito como ele vem me tratando. Diz que ele não está facilitando em nada o meu trabalho, já tem gente vindo reclamar pra mim. Sabe, eu sempre o respeitei, nunca interferi no trabalho dele, mas se continuar assim, não sei não. Veja a senhora que eu sempre fiz muito bem o meu trabalho, com calma, pois o Tempo sempre foi muito generoso, sempre passando devagar. Mas veja a senhora também que eu, logo eu, fui cair de amores pela Saudade. E parece que só de pirraça o tal do Tempo resolveu fazer piada, brincar comigo, passar do jeito que ele quis. Sempre passando devagar e agora, quando eu finalmente posso encontrar a Saudade, quando eu finalmente tenho um tempo com ela, ele passa voando, não dá nem sinal! Vê se isso é coisa que se faça! Eu conto os dias, conto as horas para encontrá-la, vou sem perder tempo, mas parece até que é o tempo que me perde.

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Questão de tempo
6 de fevereiro de 2011 às 10:33 PM | por Lorena Gonzalez.
Sempre me disseram que tudo tem o tempo certo pra acontecer. Sempre me ensinaram que se for pra ser, será, não importa quando. Mas eu sempre ouvi falar que você tem que aproveitar as chances que a vida dá, porque elas nunca aparecem duas vezes. Sempre ouvi dizer que a mesma porta nunca abre duas vezes. Contudo, dizem as boas línguas que quando uma porta se fecha, uma janela se abre. Sendo assim, eu fico dividida entre o "deixe estar que o que for pra ser vigora" e o "e se o tempo levar você e um dia eu te olhar e não te reconhecer?"
Ela olhava pela janela distraída, o computador ligado ao lado, um email meio escrito esquecido na tela.
Alias, falando em tempo. Tempo é uma coisa engraçada, não é? Parece até que ele faz de propósito, que ele brinca com a gente. Como é que o tempo pode ser a solução para todas as dores quando ele é o causador delas? Como é que a gente pode dizer que o tempo cura todas as feridas se é ele que leva as pessoas pra longe? "Ah, será que o tempo tem tempo pra amar?"
A playlist continuava tocando sem parar sem ela prestar muita atenção. Ela segurava o celular apertado na mão.
Queria que o tempo tivesse parado naquele dia. Queria ter tido tempo pra fazer tudo o que eu queria. Queria poder voltar no tempo. Queria que o tempo não fosse tão invejoso. Queria fazer "o tempo engatinhar do jeito que eu sempre quis se não for devagar que ao menos seja eterno assim"
Ela digitou rápido e sem ter tempo de ver o que estava fazendo mandou enviar, rápido o suficiente pra não ter tempo de mudar de ideia.
Mas e se o tempo estiver brincando comigo? E se eu tiver entendido errado? E se for tarde demais? E se passou e eu nem vi? E se eu tiver entendido errado? Essa história de "acontecer naturalmente" funciona mesmo?
O celular vibrou na sua mão. "Falha ao enviar essa mensagem" era tudo o que ela recebia nesses ultimos dias.
Talvez ainda dê tempo pra mim. Talvez eu ainda tenha tempo de voltar atras, desistir de tudo, jogar tudo pro alto, talvez o pra sempre realmente sempre acabe. Talvez não exista sempre nem nunca. "Talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação". "Talvez amanhã..." Talvez o tempo seja só uma questão de opinião ou de ponto de vista. Como já dizia Duca Leindecker "o tempo está no pensamento".

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




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