Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Propriedade privada
4 de agosto de 2017 às 7:30 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Não tem nós
tem você
e você tem eu
e eu tenho um coração cheio de medo
eu tenho um peito cheio de aperto
tenho um amor vazio de mim

você tem eu
em todas as suas frases têm "eu"
todos os seus planos têm "eu"
todos os sentidos são seus
você me tem
e nunca me deu o nós



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Homem de lata
13 de junho de 2017 às 10:27 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
A garota era arrastada pela mão enquanto a mãe andava a passos largos pela rua movimentada, mal tinha tempo de olhar pros lados e observar os sapatos das pessoas. Gostava de observar sapatos, cada par com sua história pra contar sobre lugares que ela ainda não conhecia. Não tinha tempo de perguntar seus porques, sabia que sua mãe não tinha paciência pra eles. Foi empurrada para dentro de uma porta esquisita, esperou pacientemente sua mãe soltar sua mão para falar com alguma outra pessoa atrás de um balcão e então começou sua caminhada de reconhecimento.
Era um lugar interessante, as paredes cobertas de prateleiras cheias de livros e bonecas. Foi seguindo com as mãos uma fileira de sapatos de bonecas imaginando todas as histórias que caberiam ali até chegar a uma porta. Olhou pra trás e viu sua mãe absorta numa conversa aparentemente chata e aproveitou para descer os dois degraus que se seguiam à porta. Encontrou um homem de meia idade sentado a uma mesa com uma luminária acesa e uma boneca na mão.
-O que você está fazendo?
-Consertando uma boneca.
Desviou o olhar do homem e começou a passear pela sala. Era repleta de estantes e objetos estranhos. Aproveitou da falta de atenção para olhar tudo sem timidez.
-O que é isso? - Apontou com suas mãozinhas de criança para um pote de vidro grande meio escondido na prateleira do canto - Isso dentro do pote, o que é?
-Meu coração. - Ele respondeu secamente, mas não com a intenção de ser grosso ou encerrar a conversa, era apenas seu modo prático de falar sobre as coisas. Jeito esse que sempre chocava os adultos, mas era sempre muito bem visto por crianças na fase dos "por ques".
A garota franziu as sobrancelhas dando pequenas meia-voltas ao redor do pote, procurava o melhor ângulo para observar o objeto. Apertava os olhos forçando a vista para ultrapassar o reflexo da luz e chegar até o coração.
-Por que seu coração tá num pote?
-Porque ele tava doendo demais no meu peito.
-No pote ele não dói mais?
-No pote eu não sinto.
O par de olhos curiosos perdeu apenas alguns segundos no homem que bebia sua xícara de café amargo sem interromper a pintura  dos olhos da boneca. Voltou então a estudar o conteúdo do pote, a expressão de concentração fazendo seu rosto parecer estranhamente adulto, mas de um jeito que só uma criança pode se concentrar.
-Por que seu coração é tão esquisito?
-Esquisito como? - Pela primeira vez ele olhou para a garota, intrigado, que o encarava.
-Ele não tem forma de coração... - Olhou para o próprio peito vislumbrando o próprio coração - E é tão pequeninho! O meu não é tão pequeno…
-Ah, isso é porque o seu coração está inteiro, o meu é só o que sobrou.
-O que aconteceu com o seu?
-Eu dei pras pessoas.
-Por que? - Sua pergunta foi ao mesmo tempo confusa e impressionada.
-Porque elas precisavam mais que eu.
-E o que elas fizeram com ele?
-Algumas usaram, algumas guardaram e algumas jogaram fora.
-Por que você não pegou de volta?
-Porque não era mais meu.
-Por que ninguém te deu outro?
-Algumas pessoas não tem coração pra dar. Outras têm medo.
-Dar o coração dói?
-Muito.
-É por isso que as pessoas têm medo?
-Também. Mas elas também têm medo de ficar sem.
-Você teve?
-Sim.
-Por isso você guardou o coração num pote?
-Aham.
Mais uma vez ela ficou em silêncio, voltou a olhar o pote, dessa vez com o olhar mais triste e afetuoso que atento ou curioso.
-Eu acho que ele ta doente.
-É provável que sim. - Ele deu de ombros.
-Você acha que ele vai morrer?
Ele não respondeu. E ela não precisava de resposta. Ouviu então os passos dos sapatos vermelhos da sua mãe próximos a porta, sua voz severa chamando seu nome. Olhou novamente para o coração no pote sentindo o peito arder. Olhou para os seus próprios sapatos vermelhos que pareciam concordar com a ideia que se passava em sua cabeça.
Correu na direção do homem, ficou na ponta dos pés para alcançar seu rosto e deu um beijo em seu rosto. Ao voltar para o vento frio da rua novamente sendo arrastada pelos passos rápidos da mãe, sentia-se mais leve, mas não sentia falta daquele pedaço do seu coração.

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Quarentena
2 de junho de 2017 às 10:40 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Te vejo do outro lado da sala e meus olhos correm pra te abraçar. E eles esquecem de fingir que são míopes, que essa corrida não passa de uma missão de reconhecimento, de olhar para outros olhos que não sejam os seus.
Se você entra pela porta oposta à minha, meus pés se viram para o seu lado e eu ando tal qual o Curupira pendendo pra um lado que não é meu. E refaço seus passos sem perceber enquanto tudo o que eu queria era atravessar a rua.
Quando senta na cadeira junto a minha, meu corpo inteiro vibra resistindo ao magnetismo que me puxa me prendendo ao centro do seu corpo. E coça em mim como uma alergia aflorando em minha pele o abraço que eu guardo e que é seu.
Mas quando estamos só nós, minha boca te chama com pressa, vomitando o desejo de te calar com calma, te marca com dentes ferozes e te beija com a suavidade da brisa de verão. E eu me alimento do seu suco com a sede de um recém nascido me afogando no seu mar de castidade.

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Desassossego
3 de maio de 2017 às 8:47 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Você me tirou o sossego
dos dias de feriado
das pescarias no lago
das ondas do mar Egeu.

Você me trouxe o tormento
dos dias de tempestade
das guerrilhas do Zaire
das lutas do Coliseu.

Você me causou o silêncio
dos mosteiros franciscanos
das cordilheiras dos Andes
dos campos do coração teu.

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Canção de ninar
24 de abril de 2017 às 11:41 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
A mão que me encontrou no escuro veio firme como se tivesse olhos nos dedos, sabendo exatamente onde queria chegar, segura da sua invisibilidade no quarto apagado, certa do seu calor pra não dar choque quando tocasse a minha pele. Ainda assim, me encontrou calma, paciente, mapeando seu caminho deixando pra trás uma trilha de migalhas de impressões digitais. Cuidadosa, percebia as respostas do meu corpo decidindo assim suas paradas obrigatórias e pagando seus pedágios.
Essa mão trouxe consigo uma boca, a princípio tímida, respeitosa, quase como uma canção de ninar me despertando do sono e transportando pra um estado de paz conflituosa. Seus sussurros se fundiam no silêncio pesado do escuro, entrecortado pelos movimentos nos colchões e as respirações pesadas. Essa boca não vacilou, não tremeu, mas aumentou a intensidade de seus caprichos, seus beijos suaves marcando sem marcar, pesando sem pesar, tatuando em mim esse gosto doce e amargo.
O corpo que me envolveu era o mesmo de sempre, mas nesse momento era outro, era casa e abrigo, era um campo desconhecido florido e ensolarado, era um universo a ser explorado, era céu, era terra e era mar. Era um corpo feito de sonhos e abraços, mas era desejo queimando meus braços e pernas, ardendo no colo e no ventre, silenciado pelos murmúrios da rua. Era um conjunto de sentimentos confusos novos e antigos. Era meu como o meu era dele, era eu como eu era ela.

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Tira teu verso
13 de dezembro de 2016 às 6:28 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Tira do meu peito as tuas marcas, me descasca
e ranca fora esse desejo,
esse teu sumo que me escorreu.

Tira da minha pele esse teu cheiro, me abre inteiro
e estilhaça
essa vontade de te ver,
te compreender.


Tira do meu colo o teu conforto e me confronta
nesse teu jogo,
nessa tua dança,
nesse teu jeito de viver sem mim.

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Dois meses
30 de novembro de 2016 às 9:24 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Dois meses não são nada. Um espaço de tempo regulado por um cara que inventou uma medida, deu um nome e saiu vendendo calendários. Um período tão curto que não cabe nem uma estação. Dois meses não são suficientes pra conhecer todos os países do mundo e com certeza não foram tempo suficiente pra conhecer todas as pintas do seu corpo e muito menos pra enjoar delas.
Dois meses não me fizeram entender sua cabeça, não me revelaram todos os seus mistérios, não construíram o nosso universo. Mas, de alguma forma, te inseriram na minha história, te fizeram parte dos meus planos. Dois meses foram suficientes pra me fazer querer mais meses. Pra me fazer querer mais tempo, mais estações, mais países, mais desenhos no seu corpo.
Dois meses não tiraram a graça do seu sorriso e do seu jeito de me olhar, seu jeito de dizer que eu sou linda quando eu sei que você é a mais linda de todas. Não tiraram a graça de lutar contra o sono do seu lado, protelar a hora de acordar, e te provocar com a minha vênus em escorpião. Na verdade, os dois meses só aumentaram o prazer de viver cada um desses dias.

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Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




Agradecimentos.

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