Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Espera pra ver
18 de outubro de 2017 às 12:36 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Eu nunca gostei da espera. As grandes nem as pequenas, fosse esperar os meses pro natal ou os minutos pra pizza chegar. Salas de espera, então, eram meu maior pesadelo. Eu sempre tive pavor de esperas até a primeira vez que ela me deu um tapa. A mão cheia na minha bunda estalando em mim, além das suas digitais, o começo de uma nova era. 
Agora eu, que morria de medo de esperas, tremo de excitação quando sinto os sinais do que vai vir. Alguns milésimos de segundo em que eu sinto toda a energia que a estática da sua mão puxa da minha pele. Eu sinto a vibração suave do movimento que seu braço faz, o deslocamento do ar, de olhos abertos ou fechados, não faz diferença, já sei de cor o caminho das mãos. 
Minha bunda grita formigando pela palma da sua mão, violenta, arde em expectativa pelo encontro, pelo choque. Estremeço inteira, da cabeça aos pés, implorando com os olhos e com a pouca voz que me resta. Você sorri com a súplica, não preciso nem olhar pra saber, e isso aumenta mais o prazer. Melhor que o tapa, só essa espera infinita e o gemido que escapa da garganta.  

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Contrato nupcial
23 de setembro de 2017 às 12:27 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
Casa comigo, menina,
e eu te faço cafuné toda noite pra dormir,
canto baixinho no seu ouvido
não deixo a chuva te incomodar.

Casa comigo, menina,
e eu te encho de mimo noite e dia,
te faço companhia
não deixo nada faltar.

Casa comigo, menina,
e eu cuido de todas as tuas feridas,
acompanho as tuas lutas
serei seu tiro certeiro.

Casa comigo, menina,
que eu acolho as tuas dores,
abraço os seus defeitos,
te amo te corpo inteiro.

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Crise existencial não combina com yakisoba
5 de setembro de 2017 às 10:25 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Liga o rádio
esquenta o prato
senta no sofá

uma taça de vinho
o chocolate pra acompanhar
um filme em preto e branco

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Sobre fugas, partidas e desculpas
22 de agosto de 2017 às 11:00 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
      Agora eu entendo porque você foi embora em silêncio, levando todas as suas coisas às escondidas, como se nunca tivesse existido no mesmo espaço que eu. Alguns adeus são difíceis demais de dar, algumas explicações doem mais que resposta nenhuma. Afinal, como explicar em palavras que aquilo que foi familiar e confortável por tanto tempo de repente machuca? Até porque essas palavras concretizam a dor. Às vezes é mais fácil simplesmente aproveitar as oportunidades de arrumar as malas e partir. 
          Partir sem histórias, sem desculpas, sem culpado. Porque você sabia que eu não tinha culpa, que eu não fiz nada além de tentar viver o meu eu, que eu me descobria ao mesmo tempo que me perdia e que perdia tantas outras coisas, como perdi você. Você acelerou o processo pra não ser perder de si mesma. Eu procurei respostas em todos os lugares errados, procurei em mim, procurei em você, procurei na história das duas meninas que se conheceram há tanto tempo atrás. Mas as respostas estavam na partida. Pura e simplesmente. A partida que se deu tão abrupta pra mim, mas que deve ter sido calculada por dias e noites por você. 
            E esse planejamento deve ter doído tanto quanto doeu a minha busca por respostas e essa dor é ainda menor do que teria sido a dor das explicações. A dor de entender que somos isentas de culpa, que não existem monstros nem vilões, mas que às vezes as presenças pesam mais que a ausência. Eu nunca quis te podar (e você sempre soube disso), mas no meu não querer acabei fazendo pior nomeando todas as suas folhas e entregando uma minha para cada uma que caía de você. No meu não querer fiz pior te prendendo ao que eu conhecia, ao que fazia parte de mim.
        Não houve falsidade no que a gente viveu, nem diminuição, foi tudo sincero ao seu tempo e você não merece carregar pedras por ter tido coragem de partir. Vamos só deixar as pedras no caminho que ainda é tão longo e aproveitar que hoje não dói lembrar, não dói saber que você existe em outro universo independente de mim. Não dói saber que você foi embora, mesmo sem ter saído do lugar. 

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Propriedade privada
4 de agosto de 2017 às 7:30 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Não tem nós
tem você
e você tem eu
e eu tenho um coração cheio de medo
eu tenho um peito cheio de aperto
tenho um amor vazio de mim

você tem eu
em todas as suas frases têm "eu"
todos os seus planos têm "eu"
todos os sentidos são seus
você me tem
e nunca me deu o nós



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Homem de lata
13 de junho de 2017 às 10:27 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
A garota era arrastada pela mão enquanto a mãe andava a passos largos pela rua movimentada, mal tinha tempo de olhar pros lados e observar os sapatos das pessoas. Gostava de observar sapatos, cada par com sua história pra contar sobre lugares que ela ainda não conhecia. Não tinha tempo de perguntar seus porques, sabia que sua mãe não tinha paciência pra eles. Foi empurrada para dentro de uma porta esquisita, esperou pacientemente sua mãe soltar sua mão para falar com alguma outra pessoa atrás de um balcão e então começou sua caminhada de reconhecimento.
Era um lugar interessante, as paredes cobertas de prateleiras cheias de livros e bonecas. Foi seguindo com as mãos uma fileira de sapatos de bonecas imaginando todas as histórias que caberiam ali até chegar a uma porta. Olhou pra trás e viu sua mãe absorta numa conversa aparentemente chata e aproveitou para descer os dois degraus que se seguiam à porta. Encontrou um homem de meia idade sentado a uma mesa com uma luminária acesa e uma boneca na mão.
-O que você está fazendo?
-Consertando uma boneca.
Desviou o olhar do homem e começou a passear pela sala. Era repleta de estantes e objetos estranhos. Aproveitou da falta de atenção para olhar tudo sem timidez.
-O que é isso? - Apontou com suas mãozinhas de criança para um pote de vidro grande meio escondido na prateleira do canto - Isso dentro do pote, o que é?
-Meu coração. - Ele respondeu secamente, mas não com a intenção de ser grosso ou encerrar a conversa, era apenas seu modo prático de falar sobre as coisas. Jeito esse que sempre chocava os adultos, mas era sempre muito bem visto por crianças na fase dos "por ques".
A garota franziu as sobrancelhas dando pequenas meia-voltas ao redor do pote, procurava o melhor ângulo para observar o objeto. Apertava os olhos forçando a vista para ultrapassar o reflexo da luz e chegar até o coração.
-Por que seu coração tá num pote?
-Porque ele tava doendo demais no meu peito.
-No pote ele não dói mais?
-No pote eu não sinto.
O par de olhos curiosos perdeu apenas alguns segundos no homem que bebia sua xícara de café amargo sem interromper a pintura  dos olhos da boneca. Voltou então a estudar o conteúdo do pote, a expressão de concentração fazendo seu rosto parecer estranhamente adulto, mas de um jeito que só uma criança pode se concentrar.
-Por que seu coração é tão esquisito?
-Esquisito como? - Pela primeira vez ele olhou para a garota, intrigado, que o encarava.
-Ele não tem forma de coração... - Olhou para o próprio peito vislumbrando o próprio coração - E é tão pequeninho! O meu não é tão pequeno…
-Ah, isso é porque o seu coração está inteiro, o meu é só o que sobrou.
-O que aconteceu com o seu?
-Eu dei pras pessoas.
-Por que? - Sua pergunta foi ao mesmo tempo confusa e impressionada.
-Porque elas precisavam mais que eu.
-E o que elas fizeram com ele?
-Algumas usaram, algumas guardaram e algumas jogaram fora.
-Por que você não pegou de volta?
-Porque não era mais meu.
-Por que ninguém te deu outro?
-Algumas pessoas não tem coração pra dar. Outras têm medo.
-Dar o coração dói?
-Muito.
-É por isso que as pessoas têm medo?
-Também. Mas elas também têm medo de ficar sem.
-Você teve?
-Sim.
-Por isso você guardou o coração num pote?
-Aham.
Mais uma vez ela ficou em silêncio, voltou a olhar o pote, dessa vez com o olhar mais triste e afetuoso que atento ou curioso.
-Eu acho que ele ta doente.
-É provável que sim. - Ele deu de ombros.
-Você acha que ele vai morrer?
Ele não respondeu. E ela não precisava de resposta. Ouviu então os passos dos sapatos vermelhos da sua mãe próximos a porta, sua voz severa chamando seu nome. Olhou novamente para o coração no pote sentindo o peito arder. Olhou para os seus próprios sapatos vermelhos que pareciam concordar com a ideia que se passava em sua cabeça.
Correu na direção do homem, ficou na ponta dos pés para alcançar seu rosto e deu um beijo em seu rosto. Ao voltar para o vento frio da rua novamente sendo arrastada pelos passos rápidos da mãe, sentia-se mais leve, mas não sentia falta daquele pedaço do seu coração.

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Quarentena
2 de junho de 2017 às 10:40 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Te vejo do outro lado da sala e meus olhos correm pra te abraçar. E eles esquecem de fingir que são míopes, que essa corrida não passa de uma missão de reconhecimento, de olhar para outros olhos que não sejam os seus.
Se você entra pela porta oposta à minha, meus pés se viram para o seu lado e eu ando tal qual o Curupira pendendo pra um lado que não é meu. E refaço seus passos sem perceber enquanto tudo o que eu queria era atravessar a rua.
Quando senta na cadeira junto a minha, meu corpo inteiro vibra resistindo ao magnetismo que me puxa me prendendo ao centro do seu corpo. E coça em mim como uma alergia aflorando em minha pele o abraço que eu guardo e que é seu.
Mas quando estamos só nós, minha boca te chama com pressa, vomitando o desejo de te calar com calma, te marca com dentes ferozes e te beija com a suavidade da brisa de verão. E eu me alimento do seu suco com a sede de um recém nascido me afogando no seu mar de castidade.

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Posts antigos.
Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




Agradecimentos.

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