Cereja do Topo, por Lorena Gonzalez.

Canção de ninar
24 de abril de 2017 às 11:41 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
A mão que me encontrou no escuro veio firme como se tivesse olhos nos dedos, sabendo exatamente onde queria chegar, segura da sua invisibilidade no quarto apagado, certa do seu calor pra não dar choque quando tocasse a minha pele. Ainda assim, me encontrou calma, paciente, mapeando seu caminho deixando pra trás uma trilha de migalhas de impressões digitais. Cuidadosa, percebia as respostas do meu corpo decidindo assim suas paradas obrigatórias e pagando seus pedágios.
Essa mão trouxe consigo uma boca, a princípio tímida, respeitosa, quase como uma canção de ninar me despertando do sono e transportando pra um estado de paz conflituosa. Seus sussurros se fundiam no silêncio pesado do escuro, entrecortado pelos movimentos nos colchões e as respirações pesadas. Essa boca não vacilou, não tremeu, mas aumentou a intensidade de seus caprichos, seus beijos suaves marcando sem marcar, pesando sem pesar, tatuando em mim esse gosto doce e amargo.
O corpo que me envolveu era o mesmo de sempre, mas nesse momento era outro, era casa e abrigo, era um campo desconhecido florido e ensolarado, era um universo a ser explorado, era céu, era terra e era mar. Era um corpo feito de sonhos e abraços, mas era desejo queimando meus braços e pernas, ardendo no colo e no ventre, silenciado pelos murmúrios da rua. Era um conjunto de sentimentos confusos novos e antigos. Era meu como o meu era dele, era eu como eu era ela.

0 comentários


Tira teu verso
13 de dezembro de 2016 às 6:28 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Tira do meu peito as tuas marcas, me descasca
e ranca fora esse desejo,
esse teu sumo que me escorreu.

Tira da minha pele esse teu cheiro, me abre inteiro
e estilhaça
essa vontade de te ver,
te compreender.


Tira do meu colo o teu conforto e me confronta
nesse teu jogo,
nessa tua dança,
nesse teu jeito de viver sem mim.

0 comentários


Dois meses
30 de novembro de 2016 às 9:24 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Dois meses não são nada. Um espaço de tempo regulado por um cara que inventou uma medida, deu um nome e saiu vendendo calendários. Um período tão curto que não cabe nem uma estação. Dois meses não são suficientes pra conhecer todos os países do mundo e com certeza não foram tempo suficiente pra conhecer todas as pintas do seu corpo e muito menos pra enjoar delas.
Dois meses não me fizeram entender sua cabeça, não me revelaram todos os seus mistérios, não construíram o nosso universo. Mas, de alguma forma, te inseriram na minha história, te fizeram parte dos meus planos. Dois meses foram suficientes pra me fazer querer mais meses. Pra me fazer querer mais tempo, mais estações, mais países, mais desenhos no seu corpo.
Dois meses não tiraram a graça do seu sorriso e do seu jeito de me olhar, seu jeito de dizer que eu sou linda quando eu sei que você é a mais linda de todas. Não tiraram a graça de lutar contra o sono do seu lado, protelar a hora de acordar, e te provocar com a minha vênus em escorpião. Na verdade, os dois meses só aumentaram o prazer de viver cada um desses dias.

0 comentários


Três Marias
11 de novembro de 2016 às 2:02 AM | por Lorena Gonzalez Leal.
         Eram constelações as marcas no seu rosto, cada uma contando uma história, fazendo com que eu me aventurasse mais e mais adentrando esse universo. E o zodíaco do seu corpo guiando os movimentos do meu em uma sintonia perfeita, quase inexplicável se não fosse essa atração magnética entre eu e você.
       E se as pintas eram estrelas, os olhos eram dois buracos negros, me engolindo inteira sem piedade, afundando em mim e me tirando toda a certeza de ser. Dois olhos castanhos me hipnotizando, mantendo os meus olhos castanhos como reféns perdidos no espaço. 
     Mas naquela noite foram seus dedos que me fizeram viajar, rápidos, precisos, como se comandassem o lançamento de um foguete. Um foguete que me levou direto pra lua, me tirando do meu próprio corpo e me dirigindo ao êxtase. E eu astronauta sem causa aproveito cada segundo do nirvana com o corpo tremendo segurando de perto seu corpo coberto de estrelas.   

0 comentários


Quando
12 de julho de 2016 às 7:34 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Quando cansar da minha conversa
me escreva uma carta pedindo que eu me cale.
Não precisa de pedido formal,
papel de carta e selo oficial.
Não carimbe nem coloque remetente.
Pode até escrever no papel de pão.
Só peça que eu me cale. 

Quando meu beijo te enjoar,
compre uma caixa de dramin e beba bastante água
e se afaste da minha boca.
Não perca tempo com chá de ervas
e reponha logo seus nutrientes.
Pode dizer que a culpa é minha.
Só se afaste da minha boca.

Quando não me quiser mais
me chame pra um café,
ou algo gelado que dê pra tomar mais rápido,
e diga que acabou.
Não precisa esperar o cardápio,
nem se preocupa em pedir açúcar.
Pode deixar pegarem a cadeira.
Só me diz que acabou.


0 comentários


Jogo a dois
1 de julho de 2016 às 1:23 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Eu não quero jogo, mas quero o mistério. Pode deixar subentendido, não precisa deixar ao pé da letra, mas não me faz correr atrás de pistas que não existem, não to brincando de pega-pega. Alias, não me faz correr atrás de nada porque eu tenho asma e canso rápido. 
Me mostra o que você quer e seja sincera comigo. Pode ter charme, pode sorrir de canto, mas me deixa ver seu objetivo – a não ser que a gente esteja jogando War – e canta pra mim os seus segredos, um de cada vez, que assim não acaba nunca. 
Vai bordando sua história na minha, mas não faz jogo da velha, não dá ponto cego. Pode entrar aos poucos, com cuidado, pode dar nó pra segurar, mas não deixa arrebentar. Junta sua linha com a minha que eu te ensino a costurar. 
Aceita meus carinhos, mas não usa pra outro alguém. Não me veste como um par de luvas, como galocha ou capa de chuva. Mas deixa marcar como tatuagem, com aquela dor suave que atravessa a pele e que depois passa e te enche de euforia e novidade. 
Mas se você quiser jogar, eu tenho baralho e tabuleiro, tenho conta na Steam e videogame, tenho bola, dado e dedos. Jogo pô e dorminhoco, dama, dominó e pega vareta. Só não jogo amor fora, nem carinho, nem meu tempo. 

0 comentários


Alinhamento planetário
30 de junho de 2016 às 9:37 PM | por Lorena Gonzalez Leal.
Mercúrio não estava retrógrado quando ela terminou de secar o cabelo, mas seu reflexo não sorri animado. Sua expressão era apreensiva enquanto tentava de todo jeito domar os cabelos curtos. Olhou o relógio pela milésima vez. O avental xadrez já amarrado na cintura. 
Vênus brilhava imponente no céu de fim de tarde e no sorriso que blefava sem nenhuma manilha. Os olhos corriam das cartas para a festa sem parar em nada específico. A mão que não segurava o baralho corria, de tempos em tempos, pelos cabelos curtos.  
O dia já passava em Marte quando ela passou do lado da fogueira cantarolando uma música qualquer que berrava algo sobre um coração partido. Deslocada entre as bandeiras e vestidos e barbas feitas com lápis de olho. Esfriando na mão o copo de quentão, sorrindo tímida, vasculhando tudo com os olhos de tempestade. 
Não muito atrás vinha Júpiter, correndo para alcançá-lo quando elas se cruzaram pela primeira vez sem notarem a presença uma da outra a não ser pelo arrepio que percorreu os dois corpos. Sem notar o magnetismo que atraía os polos para mais perto um do outro. Sem notar as simpatias de Santo Antônio que se realizavam.  
Foram os anéis de Saturno que seguraram o mapa astral e os corpos celestes que orbitavam num furor elétrico dançavam ansiosos pra que o destino se realizasse. Alheias a toda a movimentação astronômica, elas apenas se deslocavam sem rumo sentindo o cheiro de milho verde, ocupando espaços opostos da via láctea.  
Urano trouxe seus satélites para televisionar o destino ao vivo e a cores. Um acontecimento histórico, duas almas na mesma reta impulsionadas pela movimentação interestelar, ultrapassando anos-luz em alguns passos em volta de uma fogueira de São João. Flutuando pelo tempo e espaço numa onda cósmica de misteriosa excitação.  
Mas quando os dois pares de olhos se encontraram, cada qual na sua casa celeste, os astros entraram em festa. Netuno completou sua volta no tempo em que aqueles olhos se encararam, reconhecendo-se um no outro, adentrando a atmosfera de um planeta novo, um planeta delas. E tudo se alinhou.   

0 comentários

Posts antigos.
Lorena.

Paranaense, estudante de moda, escorpiana, chocólatra, impaciente, curiosa, desorganizada, ansiosa. Eu tenho um macaco azul e um sapo de aparelho, nunca tive amigos imaginários e no dia da Toalha eu levo a minha para todos os lugares. Dou risada em filme de terror, adoro cama-elástica, algodão doce e maçã do amor, acho divertido subir em árvores. Adoro escrever... Não me atreveria jamais a escrever um poema, sei que meu lugar é a prosa, o verso eu deixo pra quem quiser.

Sobre o blog.

"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."




Agradecimentos.

Skin:Júlia Duarte.
Basecode:Jaja
Best view:Google Chrome